Celebração do "7 de Junho" na Guiné-Bissau sem discursos oficiais
A cerimónia evocativa do 7º aniversário do início do conflito militar de 1998/99, organizada pelo governo, não contou com discursos oficiais, limitando-se à deposição de coroas de flores nas campas dos soldados que tombaram durante o guerra.
O acto, presidido pelo primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, decorreu de manhã na ausência do presidente interino guineense, Henrique Rosa, adoentado, e do chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), general Tagmé Na Waie, personalidades que foram convidadas para discursar.
Em declarações aos jornalistas, o porta-voz da Junta Militar que desencadeou o conflito militar de 1998/99 na Guiné-Bissau, admitiu, contudo, ser "questionável" a "oportunidade" das comemorações de mais um aniversário da guerra civil devido ao processo eleitoral em curso.
José Zamora Induta, actual director-geral da Cooperação no Ministério da Defesa guineense, fez estas declarações ao comentar as celebrações organizadas pelo governo para assinalar o 7º aniversário daquilo que ficou conhecido no país como "Levantamento de 07 de Junho".
"Não foi da nossa iniciativa (os militares) a organização das celebrações. Mas pode-se questionar a oportunidade pelo momento da campanha eleitoral" para as presidenciais de 19 deste mês, considerou aquele que foi a "voz" da Junta Militar.
Capitão-de-fragata, Zamora Induta referiu que a iniciativa pertenceu ao "governo legítimo" e os militares participaram, na qualidade de convidados, tal como aconteceu com os representantes do corpo diplomático e de organismos internacionais.
"Estamos num processo eleitoral e os que estão a fazer politica, naturalmente, que podem tirar dividendos de um acto desta natureza. Está-se num jogo", frisou, insistindo que o exército mantém- se à margem da iniciativa.
Confrontado com o ponto de vista de muitos analistas locais, que defendem um total esquecimento dos acontecimentos de "07 de Junho", devido aos "danos" causados ao país, Zamora Induta rejeitou tal posicionamento.
"Há que separar as águas nesse aspecto. Pode-se questionar a oportunidade das comemorações deste ano, mas não se deve tirar o mérito ao levantamento em si. A história é feita de coisas boas e más", disse Zamora Induta.
Segundo este oficial, as pessoas que perderam a vida durante os 11 meses de conflito e o rejuvenescimento da democracia guineense são marcos importantes proporcionados pelo levantamento de "07 de Junho", factores que não podem ser escamoteados.
"Dizer que não se deve comemorar o «07 de Junho» é forte demais. Porque é que não se questionou das outras vezes em que foi comemorado. Agora questiona-se a oportunidade devido à campanha eleitoral e porque há candidatos que estão directamente ligados a esses acontecimentos", afirmou Induta, numa alusão a João Bernardo "Nino" Vieira, então presidente e hoje concorrente à votação de dia 19.
O ex-porta-voz da Junta Militar disse ainda que os protagonistas do levantamento sentem-se "orgulhosos" do trabalho que prestaram ao país e à democracia, porque, explicou, "cumpriram a sua palavra".
"Fizemos o levantamento - que acabou com o derrube do regime de +Nino+ Vieira - mas não assumimos o poder. O que se seguiu no país não é da nossa responsabilidade. Isso é com os políticos", destacou.No entender deste oficial, houve "problemas sérios" que motivaram o levantamento militar no dia "07 de Junho" de 1998, sob a liderança do então brigadeiro Ansumane Mané. No entanto, o país deve caminhar hoje para a reconciliação, acrescentou.
"Houve uma viragem de página a partir do dia "07 de Junho". O que temos hoje como país e como democracia, se é bom ou mau, isso já não sei", frisou Zamora Induta.
Por seu turno, o porta-voz do governo, Daniel Gomes, considerou que os guineenses deviam aproveitar o dia de hoje para reflectir sobre os contornos e as consequências da guerra civil de há sete anos.
"Foi uma guerra que marcou de forma profunda o nosso país, ao ponto de ter levado a que o país regredisse em cerca de 20 anos", frisou Daniel Gomes, destacando que os sobreviventes do conflito têm o "sagrado dever" de honrar os mortos.
O governo esteve em peso nas celebrações que tiveram como palco central o mítico Poilão de Brá, situado a sete quilómetros do centro da capital guineense, que simboliza a linha divisória das duas forças em combate, os apoiantes de "Nino" Vieira e os de Ansumane Mané.