Cenário político em São Tomé e Príncipe cada vez mais bipolarizado - dirigentes
O cenário político em São Tomé e Príncipe tem sido marcado, nos últimos anos, por uma polarização entre dois grandes blocos, tendência que deverá acentuar-se, face às eleições legislativas previstas para outubro de 2022, antecipam dirigentes partidários.
Nas eleições legislativas de 2018, a cisão ficou mais clara: a Ação Democrática Independente (ADI), do então primeiro-ministro Patrice Trovoada, foi o partido mais votado, com 25 dos 55 lugares que compõem a Assembleia Nacional.
O Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe - Partido Social Democrata (MLSTP-PSD) conquistou 23 mandatos, mas fez um acordo pós-eleitoral com o Partido da Convergência Democrática (PCD) e a coligação UDD/MDFM, que tinham obtido cinco lugares, garantindo assim uma maioria que impediu Patrice Trovoada de formar Governo e que suporta o executivo de Jorge Bom Jesus.
"É um processo que começou em 2018. O panorama político são-tomense - e ficou confirmado agora nas eleições presidenciais - está a bipolarizar-se", disse, em entrevista à agência Lusa, o presidente do MLSTP e primeiro-ministro, Jorge Bom Jesus.
"De um lado, o ADI - tenho que aceitar com alguma maioria sociológica que já pertenceu ao MLSTP -, e do outro lado o MLSTP, partido histórico, da independência, da abertura democrática, que foi perdendo também algum eleitorado, sobretudo o eleitorado jovem, e os outros [PCD, UDD e MDFM]", integrando a chamada `nova maioria`, comentou.
Nas eleições presidenciais realizadas em 05 de setembro, venceu, à segunda volta, Carlos Vila Nova, apoiado pela ADI, enquanto Guilherme Posser da Costa, candidato oficial do MLSTP, recebeu o apoio dos restantes partidos da `nova maioria`.
Quando falta um ano para as próximas legislativas, estes quatro partidos estão "condenados a consolidar esta maioria", vaticinou Bom Jesus.
"Se a tendência bipolar continuar, não temos outra alternativa senão continuar a consolidar e sobretudo encontrar soluções para o crescimento desta maioria, para que ela possa ser uma alternativa mais clara do que agora", referiu, explicando que a atual maioria é tangencial, e, embora "funcional", não é "muito confortável" para o executivo.
O líder da ADI, Patrice Trovoada, recua mais no tempo, para identificar o início do processo de bipolarização.
"Já há cerca de dez anos que os anti-ADI se alinharam com o MLSTP, e os resultados eleitorais têm mostrado que têm enfraquecido eleições após as eleições. As presidenciais, mais uma vez, acentuaram esse fenómeno de enfraquecimento dos anti-ADI e da consolidação do próprio ADI face ao MLSTP", comentou o ex-primeiro-ministro, em declarações à Lusa.
Na ótica de Patrice Trovoada, assiste-se a "uma polarização entre o povo da mudança e o povo do partido único".
"Ao longo do tempo isso diluiu-se em problemas e rancores pessoais, que levou a uma pirâmide com três polos" (ADI, MLSTP e PCD), considerou.
O líder da ADI acredita que, nas legislativas do próximo ano, o MLSTP irá perder a vantagem conquistada em 2018, "isto porque perdeu um pouco da sua identidade, misturando-se com os anti-ADI e não tendo programa ou objetivos próprios que pudessem satisfazer as expectativas do eleitorado".
"Não há blocos positivos, digamos assim, de propostas. Hoje há um partido, o ADI, que pelo facto de ter exercido com maioria absoluta durante quatro anos [2014-2018] vincou um pouco a sua posição em termos de reformas, de medidas, de políticas", e, do outro lado, "há todo um bloco contra, que não se diferenciou nem em termos de política nem de comportamentos", considerou.
Patrice Trovoada rejeita um eventual cenário em que o PCD pudesse garantir uma maioria a um lado ou a outro, antecipando uma maioria absoluta para a ADI nas legislativas de 2022, com base nos resultados das recentes eleições presidenciais.
Já o PCD recusa alinhar nessa bipolarização e reivindica para si o lugar de terceira força política em São Tomé e Príncipe.
Em entrevista à Lusa, Delfim Neves, dirigente do partido há mais de 17 anos - função que suspendeu para concorrer às presidenciais -- apontou o dedo à ADI.
A partir das legislativas de 2014, que o partido de Patrice Trovoada venceu com maioria absoluta, "o trabalho foi feito de forma muito clara para a bipolarização do país, em que o ADI estivesse de um lado e do outro lado estivessem todos os outros", sustentou o atual presidente da Assembleia Nacional são-tomense.
"Ele próprio, líder do ADI, criou estas condições porque não quis nenhum aliado, não quer falar com ninguém, e a sua governação 2014-2018 deixou muitas sequelas, perseguições e hostilidade", acrescentou.
Sobre a bipolarização, Delfim Neves mostra-se cético: "Será muito difícil consolidar em São Tomé e Príncipe", estimou.
"Seriam dois blocos: um lado ADI e do outro lado MLSTP. Não é MLSTP mais os outros. É MLSTP, porque as pessoas sabem que dificilmente haverá uma união de partidos com o MSLTP", referiu, acrescentando: "Nesta base da vontade de bipolarização e outros que rejeitam essa possibilidade, abre-se espaço para uma terceira frente".