Centenas de detidos durante protestos estudantis em França

Centenas de detidos durante protestos estudantis em França

Mais de 400 pessoas foram detidas após confrontos entre a polícia e os estudantes motivados por questões como o tamanho das turmas, os horários exaustivos e a falta de funcionários.

Cristina Sambado - RTP / Adicionar como fonte informativa
Tom Nicholson - Reuters

Mais de 400 pessoas — a maioria jovens — foram detidas em França na terça-feira, depois de adolescentes de todo o país terem bloqueado o acesso às escolas em protesto contra o tamanho das turmas, a escassez de professores e as longas jornadas escolares.

"440 pessoas foram detidas em todo o território nacional. Ainda não temos o número final, mas fui informado de que dois terços destes casos resultaram em custódia policial", afirmou o ministro do Interior, Laurent Nuñez, à BFM TV.

O Ministério da Educação revelou que 416 escolas foram afetadas por protestos ou interrupções esta terça-feira, de um total de cerca de 3.700 instituições em todo o país.

As manifestações começaram em Paris na semana passada e, desde então, intensificaram-se e espalharam-se por França. Na terça-feira, alunos do ensino secundário de Lille, no norte do país, incendiaram contentores do lixo e atiraram garrafas, paralelepípedos e outros objetos contra a polícia. Os agentes responderam com gás lacrimogéneo depois de os manifestantes terem depredado paragens de autocarro e painéis publicitários.

"Nada justifica comparecer nas instituições para protestar mascarado, com o rosto oculto e transportando objetos para arremessar, aguardando a intervenção das forças de segurança apenas para as confrontar", disse Lauren Nuñez, acrescentando que, nos confrontos desta terça-feira, houve sete episódios em que foi atirado ácido clorídrico contra os polícias.

Ao todo, 48 polícias ficaram feridos durante os confrontos em todo o país.

"A gravidade das agressões, especialmente contra as forças de segurança, bem como dos danos e de algumas ações contra funcionários e professores, é significativa", sustentou Nuñez.

Também se registaram confrontos entre jovens e a polícia em Bordéus, Rennes e Nantes, no oeste de França, e em Marselha, no sul.
No liceu Lamartine, a norte de Paris, os estudantes exibiam cartazes queixando-se de horários exaustivos. Um deles dizia: "Das 8h às 18h. Mais horas de aulas do que de sono".

No subúrbio parisiense de Seine-Saint-Denis, o presidente da câmara, Bally Bagayoko, juntou-se a um protesto de centenas de estudantes no liceu Paul-Éluard.

Liderando os estudantes ao cantar o hino nacional, descreveu os protestos como "totalmente legítimos" e criticou o facto de as zonas de baixos rendimentos receberem menos recursos do que as de rendimentos mais elevados. Quando se formou uma multidão, polícias equipados com escudos de choque golpearam os estudantes com bastões, segundo a agência France-Presse.

Os protestos ocorreram numa altura em que os sindicatos franceses realizavam greves contra os planos orçamentais do governo, que incluem cortes de 54 milhões de euros nas despesas públicas. Muitos trabalhadores do setor público paralisaram as atividades na terça-feira, incluindo cerca de 40% dos professores do ensino primário. Ryad Rani, presidente da Union Syndicale Lycéene (sindicato dos estudantes do ensino secundário), tinha convocado um bloqueio total das escolas secundárias francesas como uma ação paralela, mas pediu aos manifestantes que "mantivessem a calma". Frisou que o sindicato protestava contra a "falta geral de recursos, as salas de aula sobrelotadas — por vezes com 32 a 35 alunos — e a escassez de professores e funcionários".

Classificou como um "escândalo absoluto" uma circular enviada pelos Ministérios do Interior e da Educação à polícia, instruindo os agentes para manterem a ordem pública em frente às escolas "com um uso proporcional da força". 

“Estamos a falar de alunos dos 15 aos 18 anos, e a única resposta do governo é a repressão automática e institucionalizada. É inaceitável. Os alunos do ensino secundário estão a mobilizar-se para exigir condições mais justas e equitativas e deparam-se com a BAC [brigada anti-crime] e a CRS [tropa de choque]”, acrescentou Rani.

Segundo Ryad Rani, alguns professores e funcionários da escola posicionaram-se à frente dos alunos para os proteger da polícia
. “Estas são as imagens que vocês deviam mostrar”, disse à BFM TV.

Caroline Chevé, secretária-geral do principal sindicato de professores, a Fédération Syndicale Unitaire (FSU – Federação Sindical Unitária) — que participou numa manifestação no centro de Paris na terça-feira —, disse compreender a frustração dos estudantes. “Enfrentam os mesmos desafios que nós. Estão em salas de aula sobrelotadas. Por vezes, não há professores suficientes devido à escassez de pessoal. Veem a mesma realidade que nós e estão revoltados”.
Governo e oposição trocam acusações "Fogo-de-artifício, incêndios, violência perto de escolas secundárias: nada justifica colocar em risco alunos, funcionários ou polícias", escreveu o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, na rede social X, depois de ter declarado anteriormente que intensificar as manifestações seria "irresponsável”.

Jean-Luc Mélenchon, líder do partido de extrema-esquerda França Insubmissa (LFI), reagiu às instruções dadas pelos ministros à polícia, publicando na segunda-feira no X: "Os estudantes do ensino secundário que protestam são inofensivos. O governo de Lecornu ordenou uma repressão. Esta brutalidade é irresponsável e tem um claro pendor racista. Tirem as mãos da nossa juventude. Autoridades eleitas e ativistas da França Insubmissa, intervenham onde puderem".

Lecornu, respondendo na mesma rede social, classificou a intervenção de Mélenchon como uma "escalada irresponsável". "O dever de um representante eleito da República é proteger os jovens e pedir calma. Explorar a sua raiva para fins partidários é errado".

Acrescentou que a acusação de racismo feita por Mélenchon era "um insulto".

c/agências 
PUB