Centenas de jovens recebem com protestos missão da CEDEAO no Burkina Faso
Centenas de jovens protestaram hoje no Burkina Faso contra a França e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que enviou uma missão para se encontrar com as novas autoridades do país, após o golpe de sexta-feira.
Os manifestantes cortaram, com as suas motos, algumas das ruas no centro da capital, Ouagadougou. Levavam as bandeiras do Burkina Faso e da Rússia e faixas com mensagens como: "Abaixo a CEDEAO e a França" (ex-metrópole do Burkina Faso), "Viva a Rússia, não à CEDEAO, abaixo a França" ou "CEDEAO - sempre médico após a morte, já chega".
A França apoia o Burkina Faso na luta contra o terrorismo, mas os líderes golpistas insinuaram o seu interesse em novos parceiros, sem especificar, para combater este flagelo, embora mercenários russos tenham substituído tropas francesas há meses no vizinho Mali, que também está a combater grupos islamistas.
Segundo a agência Efe, cerca de 200 jovens reuniram-se perto do aeroporto internacional de Ouagadougougou para aguardar a aterragem da delegação da CEDEAO, chefiada pela ministra dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau, que anunciou a sua visita após o golpe de Estado.
"Estamos a lutar há quatro dias. Desde os distritos até ao centro da cidade, temos lutado dia e noite pela nossa independência. E, hoje, a CEDEAO vem forçar as nossas autoridades a aceitar coisas que não nos vão ajudar", disse Madi Kafando, um jovem manifestante.
"Estamos aqui à espera da delegação da CEDEAO, vamos vaiá-los para os fazer compreender que não estamos satisfeitos. Não queremos saber de sanções, já tivemos o pior com o terrorismo nos últimos seis anos", acrescentou Kafando.
Cerca de 400 pessoas protestaram com apitos, chifres e bandeiras na mão no bairro residencial de Ouaga 2000, perto da sala onde decorria a reunião da CEDEAO.
O líder do golpe e o novo homem forte do país, o capitão Ibrahim Traoré, disse através de uma declaração que estava "espantado e arrependido" com a "disseminação de mensagens que apelavam ao boicote desta missão" e avisou que os violadores iriam sofrer "o rigor da lei".
Traoré explicou que a missão "é um contacto com as novas autoridades de transição" e apelou à população a "confiar" e a abster-se de "atos que possam perturbar o bom funcionamento da missão da CEDEAO".
A delegação da CEDEAO é chefiada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau e presidente do Conselho de Ministros da CEDEAO, Suzi Carla Barbosa, que é acompanhada pelo antigo presidente do Níger e mediador da CEDEAO para o Burkina Faso, Mahamadou Issoufou, e pelo presidente da Comissão da CEDEAO, Omar Alieu Touray.
O Burkina Faso sofreu o seu segundo golpe de Estado este ano a 30 de setembro, após o liderado a 24 de janeiro pelo antigo presidente de transição, o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba.
Entre as condições de demissão de Damiba figurava o "cumprimento dos compromissos assumidos" perante a CEDEAO, que prevê um regresso à ordem constitucional, o mais tardar até 01 de julho de 2024.
A tomada do poder pelos militares teve lugar, em ambas as ocasiões, na sequência do descontentamento entre a população e o exército pelos ataques jihadistas que o país sofreu desde abril de 2015, levados a cabo por grupos ligados tanto à Al-Qaida como ao Estado Islâmico, que deslocaram quase dois milhões de pessoas.