Centralização de poder por Xi ameaça desestabilizar regime chinês, diz ex-quadro do PC Chinês

A decisão do líder da China, Xi Jinping, de reverter as reformas políticas promovidas pelos seus antecessores ameaça abalar os alicerces do regime, advertiu uma antiga funcionária responsável pela formação dos quadros do Partido Comunista.

Lusa /

"A competição entre as várias fações do Partido Comunista Chinês (PCC) vai tornar-se mais intensa, complexa e brutal do que nunca", previu Cai Xia, antiga professora na Escola Central do Partido, que está encarregue da formação dos altos quadros do regime, num artigo publicado pela revista Foreign Affairs.

Cai foi expulsa do PCC e perdeu acesso à sua reforma, em 2020, por ter feito um discurso com "graves problemas políticos", segundo as autoridades chinesas. Em causa está uma intervenção, que acabou por vir a público, na qual a antiga professora de teoria política acusou o Partido de se ter tornado num "`zombie` político" e Xi Jinping de agir como um "líder da máfia". Ela vive desde então exilada nos Estados Unidos.

Xi Jinping deve quebrar, este mês, com a tradição política chinesa, ao assumir um terceiro mandato como secretário-geral do PCC, no 20º Congresso do Partido.

O líder chinês reverteu várias das reformas políticas realizadas pelos seus antecessores, que procuraram basear a tomada de decisão num processo de consulta coletiva, afastar o Partido Comunista de órgãos administrativos do Estado e descentralizar a autoridade pelas províncias e localidades, visando evitar os excessos que quase destruíram a China, durante o `reinado` de Mao Zedong (1949 - 1976).

Aquelas medidas visaram garantir estabilidade na sucessão do poder político, que é historicamente apontado como o `calcanhar de Aquiles` do sistema chinês, face à ausência de um processo institucionalizado. Laços pessoais e lealdade política assumem especial importância nos arranjos e negociações internas entre as diferentes fações do Partido Comunista.

Sob a direção de Xi, o PCC voltou a penetrar na vida política, social e económica da China, enquanto o poder político se centrou na sua figura. No último congresso do PCC, realizado em outubro de 2017, Xi não nomeou um sucessor óbvio e a Constituição foi posteriormente alterada pelo órgão legislativo da China, para permitir que ele cumprisse três ou mais mandatos como chefe de Estado. Em 2021, um plenário do Comité Central aprovou uma resolução sobre a História do PCC, que elevou a sua posição na hierarquia ideológica do Partido.

"Ao descartar a longa tradição de governação coletiva da China e criar um culto à sua personalidade (...) Xi enfureceu os membros do Partido", escreveu Xia. "Nas sombras, o ressentimento entre as elites do PCC está a aumentar", avisou.

Uma vasta campanha anticorrupção lançada pelo líder chinês resultou na condenação à prisão perpétua ou à pena de morte de milhares de quadros e funcionários do Partido Comunista, líderes de empresas e organizações públicas e oficiais do Exército.

A campanha, que críticos dizem ter servido para Xi afastar rivais políticos, intensificou-se este ano. Só no mês passado, três antigos altos quadros dos ministérios de Segurança Pública e da Segurança do Estado foram punidos com pena de morte.

Cai prevê que a China entre num "ciclo vicioso", no qual o líder chinês "reage à perceção de ameaças com ações cada vez mais ousadas, que geram ainda mais resistência".

"Xi Jinping pode arruinar algo que a China conquistou nas últimas quatro décadas: a reputação de ter uma liderança firme e competente", apontou.

A oposição a Xi terá dificuldades em travar a atribuição de um terceiro mandato. Tecnologias de vigilância pervasivas entre a elite política e regras de disciplina interna tornaram mais difícil organizar golpes palacianos, afirmou Cai.

Em maio passado, Xi anunciou que a Comissão de Inspeção e Disciplina do Partido "limparia a corrupção sistémica e eliminaria riscos ocultos" através da investigação retroactiva a quadros aposentados, que tradicionalmente exercem um poder significativo nos arranjos políticos da organização.

O líder chinês advertiu para que "não participem em atividades de organizações ilegais e não usem a sua antiga autoridade ou influência para buscar benefícios para si e para os outros".

A proibição de participar em "atividades extra" interditou também os 2.300 delegados que vão participar no Congresso do PCC de reunirem fora das reuniões formais das suas delegações provinciais, limitando a sua capacidade de se organizarem para votar contra uma determinada política ou líder.

"Uma coisa é guardar ressentimento, outra coisa é agir", escreveu Xia. "Os altos quadros do Partido sabem que estão sujeitos a serem punidos por corrupção e, por isso, têm pouca vontade de manobrar contra Xi", explicou.

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