Centro da vida judaica na capital do Mississippi danificado por ataque incendiário
Um incêndio de origem criminosa no fim de semana, que danificou gravemente a biblioteca e os escritórios administrativos da histórica sinagoga de Beth Israel tornou tudo muito mais difícil para a vida dos judeus na capital do Mississippi.
Aos judeus faz-lhes lembrar uma era de mais de meio século atrás, quando a Ku Klux Klan bombardeou a sinagoga de Jackson, Mississippi, devido ao apoio do seu rabino aos direitos civis.
Com apenas algumas centenas de pessoas na comunidade, nunca foi particularmente fácil ser judeu na capital do Mississippi, mas os membros da Congregação Beth Israel sentiam um orgulho especial em manter vivas as suas tradições no coração do Deep South.
Na manhã de hoje, as autoridades ainda não tinham divulgado publicamente o nome de um suspeito, que foi detido, mas o FBI prometeu divulgar mais informações ao longo do dia.
Uma fita policial amarela bloqueava hoje as entradas do edifício da sinagoga, que estava rodeado de vidros partidos e fuligem. Buquês de flores foram colocados no chão à entrada do edifício, incluindo uma com uma nota que dizia: "Lamento muito."
Imagens de câmaras de segurança divulgadas também hoje pela sinagoga mostraram uma pessoa mascarada e de capuz a usar um boião de gasolina a derramar um líquido no chão e num sofá no hall do edifício.
O presidente da congregação, Zach Shemper, prometeu reconstruir a sinagoga e disse que várias igrejas tinham oferecido os seus espaços para cultos durante o processo de reconstrução.
"Como única sinagoga de Jackson, Beth Israel é uma instituição querida, e é o convívio dos nossos vizinhos e da comunidade alargada que nos ajudará a ultrapassar isto", afirmou Shemper.
Com exceção do cemitério, todos os aspetos da vida judaica em Jackson estavam sob o teto de Beth Israel.
O edifício moderno, de meados do século, não só abrigava a congregação, como também a Federação Judaica, uma entidade prestadora de serviços sociais e de filantropia sem fins lucrativos, o núcleo da vida institucional judaica na maioria das cidades dos EUA.
O edifício também acolhia o Instituto da Vida Judaica do Sul, que dá recursos às comunidades judaicas em 13 estados do sul.
Um memorial do Holocausto estava ao ar livre, atrás do edifício da sinagoga.
Como crianças judaicas de todo o Sul têm frequentado o campo de verão durante décadas, em Utica, Mississippi, a cerca de 48 quilómetros a sudoeste de Jackson, muitos mantêm uma ligação afetuosa ao estado e à sua comunidade judaica.
"Jackson é a cidade capital, e essa sinagoga é a sinagoga principal no Mississippi", disse o Rabino Gary Zola, um historiador do judaísmo americano que lecionou no Hebrew Union College em Cincinnati.
"Eu chamaria de a principal, embora, quando falamos de lugares como Nova Iorque e Los Angeles, provavelmente pareça uma cidadezinha", realçou.
A congregação estava tão empenhada em manter a vida judaica em Jackson que, quando o seu rabino residente se ausentou recentemente, os congregantes decidiram pagar a formação rabínica de vários anos do seu solista cantor, Benjamin Russell, para que Beth Israel pudesse manter um líder religioso em tempo inteiro, formado no seminário.
Beth Israel, como congregação, foi fundada em 1860 e adquiriu a sua primeira propriedade, onde construiu a primeira sinagoga do Mississippi após a Guerra Civil.
Em 1967, a sinagoga mudou-se para a sua localização atual, onde foi bombardeada por membros locais da Ku Klux Klan pouco tempo depois da mudança.
Dois meses depois, a casa do líder da sinagoga, o rabino Perry Nussbaum, foi bombardeada devido à sua pronunciada oposição à segregação e ao racismo.
O incêndio deste fim de semana devastou a Congregação Beth Israel pouco depois das 03:00 da manhã de sábado, disseram as autoridades.
Nenhum congregante ou bombeiro ficou ferido no incêndio. Os bombeiros chegaram ao local e encontraram chamas a sair das janelas e todas as portas da sinagoga trancadas, conforme o departamento de bombeiros.
Uma Torá que sobreviveu ao Holocausto estava protegida por vidro e não sofreu danos no incêndio, segundo a congregação.
Cinco Torás, os rolos sagrados com o texto dos primeiros cinco livros da Bíblia Hebraica, dentro do santuário estavam a ser avaliados por danos causados pelo fumo. Duas Torás dentro da biblioteca, onde os danos foram mais graves, foram destruídas, segundo um representante da sinagoga.