Cérebro humano é composto por dois órgãos separados

Cérebro humano é composto por dois órgãos separados

O cérebro, visto pelos cientistas durante séculos como um único órgão unificado, é constituído por dois órgãos distintos que evoluíram independentemente ao longo de centenas de milhões de anos, revela um estudo divulgado hoje.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
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Liderada por cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, a nova investigação "mostra que o cérebro humano consiste em dois sistemas nervosos antigos inteligentemente combinados", indica um comunicado da universidade.

Uma das partes, "mais primitiva", é responsável pelas funções vitais, como a frequência cardíaca, a respiração, a pressão arterial ou o sono, enquanto a outra "nos torna distintamente humanos, capazes de poesia, matemática e de questionar as nossas origens", adianta.

"Demonstrámos pela primeira vez que a parte frontal do cérebro tem origem numa célula progenitora totalmente diferente da parte posterior", disse Kyle Loh, professor associado de Biologia do Desenvolvimento da universidade e um dos autores do estudo publicado hoje na revista Nature Neuroscience.

"A nossa descoberta significa que agora podemos cultivar neurónios da parte posterior do cérebro, o rombencéfalo [frequentemente chamado de tronco cerebral], numa placa de Petri e estudar as suas funções", acrescentou, citado no comunicado.

E isto abre novos caminhos para o estudo de doenças que afetam o tronco cerebral, como as degenerativas graves atrofia muscular espinhal (AME) e esclerose lateral amiotrófica (ELA ou doença de Lou Gehrig).

O estudo, que tem Kyle Loh como autor sénior e os estudantes de pós-graduação Carolyn Dundes e Rayyan Jokhai como primeiros coautores, analisa os primeiros momentos do desenvolvimento embrionário de ratos, o que permitiu a identificação de "duas células progenitoras cerebrais diferentes".

Uma delas "está destinada a tornar-se o prosencéfalo [lida com o pensamento de nível superior-linguagem, consciência e raciocínio abstrato] e o mesencéfalo", duas das três regiões principais do cérebro, além do rombencéfalo, cuja formação está ligada à da outra célula progenitora.

Segundo o comunicado, "estas duas populações de células nunca se sobrepõem" e "são mutuamente exclusivas desde as fases iniciais do desenvolvimento".

Jokhai e Dundes descobriram que o rombencéfalo segue um caminho de desenvolvimento separado, correndo em paralelo (em vez de se ramificar) ao que cria o prosencéfalo e o mesencéfalo.

"As tentativas anteriores de criar neurónios do rombencéfalo provavelmente tentaram transformar progenitores do prosencéfalo e do mesencéfalo em células do rombencéfalo, o que o nosso estudo mostra que não é possível", explicou Jokhai, citada no comunicado.

Após a descoberta, os cientistas conseguiram, pela primeira vez, "induzir as células estaminais pluripotentes humanas (um tipo de célula capaz de criar qualquer uma do corpo humano) a tornarem-se neurónios motores funcionais do rombencéfalo em laboratório".

Até agora, estudar doenças como a AME e a ELA era quase impossível porque os cientistas não conseguiam obter tecido do tronco cerebral de doentes vivos, mas a capacidade de cultivar aqueles neurónios em laboratório abre novas possibilidades para compreender o que corre mal.

O tratamento da obesidade também pode beneficiar, já que o rombencéfalo contém circuitos que regulam a fome, sendo assim que funcionam os medicamentos para a perda de peso, como a semaglutida, também utilizado para tratar a diabetes tipo 2 e vendido sob a marca Ozempic.

"Temos agora um modelo para compreender melhor estas doenças devastadoras e trabalhar no desenvolvimento de terapias regenerativas para as mesmas", disse Jokhai, acrescentando que esta "é uma nova fronteira muito entusiasmante na investigação cerebral".

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