À medida que a ciência avança e a investigação humana é aprofundada, são cada vez mais as descobertas sobre como somos e como funcionamos. E somos surpreendidos.
Por vezes afirmamos que somos uma “máquina” perfeita, na conjugação e na forma de lidar com os infindáveis perigos que nos rodeiam, e que nos podem matar a qualquer momento. Mas resistimos, arranjamos defesas e continuamos por cá.
E um dos fatores desta resistência pode estar incluído neste estudo e estar relacionado directamente ou indirectamente com a participação da especiação humana.
Comparar o cérebro e os testículos do ser humano não passa pela cabeça de ninguém. Ou melhor, passar não passa, mas muitas vezes há referências populares que identificam esta ligação perante atitudes masculinas de cariz sexual.
Certo é que neste caso o estudo efectuado pela equipa multidisciplinar de investigadores do Instituto de Biomedicina (iBiMED) da Universidade de Aveiro, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), da Universidade do Porto, e ainda da Universidade de Birmingham não se insere no comportamento sociológico masculino, mas sim nas funções biomecânicas das células presentes nos dois órgãos.
Os resultados obtidos mostram que o cérebro e o testículo partilham aspetos funcionais, essenciais para garantir a evolução e a integridade da nossa espécie. O que estes dois órgãos têm em comum pode ainda ajudar a compreender patologias que afetam ambos e encontrar tratamentos dirigidos.
A investigadora no departamento de ciências médicas & iBiMED, e uma das participantes neste estudo, refere que as duas principais semelhanças entre o cérebro e os testículos são a pele protetora que protege, envolve e separa os dois órgãos do restante corpo, mas principalmente células diferentes que executam funções exactamente iguais nos dois órgãos.
“No testículo, as células Sertoli são umas células de suporte, mas não servem apenas para isso na espermatogénese, ou seja para o desenvolvimento de espermatozóides. Elas, para além de suportarem e criarem um ambiente ideal para os espermatozóides se formarem, partilham com eles toda a parte metabólica”. Ou seja captam a glucose (açúcar) transformam-na em lactato que vai dar a energia suficiente aos espermatozóides para se desenvolverem. No cérebro existem os astrócitos, outras células, que fazem exactamente o mesmo, mas dão o lactato aos neurónios”, nutrindo-os desta forma. Os mecanismos são em tudo idênticos nos dois órgãos.
Sertoli e Astrócitos. Células com funções iguais mas em órgãos diferentes
Mas afinal que células são os Sertoli e os Astrócitos? A ciência já nos revelava um pouco sobre eles, mas continuamos a ser surpreendidos com o que se passa dentro de nós.
As células de Sertoli são elementos essenciais para a realização das funções testiculares. Possuem formato piramidal e envolvem parcialmente as células da linhagem espermatogénica. As bases das células de Sertoli aderem à lâmina basal dos túbulos, e as suas extremidades apicais encontram-se no lúmen dos túbulos seminíferos (in infoescola.com/citologia/celulas-de-sertoli).
Já os astrócitos presentes no cérebro saõ de dois tipos: protoplasmáticos e fibrosos.
Astrócitos captam neurotransmissores libertados e facilitam o retorno dos precursores aos neurónios para reutilização. Por exemplo, captam glutamato, um importante neurotransmissor excitatório, após a libertação, e devolvem-no aos neurónios na forma de precursores. (in http://anatpat.unicamp.br/taneutecnervnl)
Apesar dos comentários populares, não há provas de qualquer ligação direta cognitiva entre os dois órgãos. Mas a ciência provou que, para além da descoberta deste estudo, o cérebro é a fonte de comando para o funcionamento dos restantes órgãos no nosso corpo. Mas também os testículos têm influências hormonais na função reprodutiva com impacto na zona do hipotálamo, no cérebro.
Sobre este tópico a investigadora Margarida Fardilha já esperava alguma “zombaria” quando decidiu estudar e abordar o tema.
“Eu já estava há espera que quando isto saísse iria ser alvo de piadas desse género.(…) a ideia aqui (…) é o porquê de isto acontecer. Porque é que o testículo e o cérebro parecem ter tanta semelhança em termos de protioma (Proteinas)”, refere a investigadora à RTP.
E o estudo revelou que entre os cerca de 30 tecidos existentes no corpo humano, estes dois são os mais semelhantes, partilhando o maior número de proteínas comuns: das 14315 e 15687 proteínas existentes no cérebro e no testículo, respetivamente, 13442 são comuns.
“Podemos pensar que uma das explicações pode ser o facto de o testículo participar na especiação humana, ou seja a criação de uma nova espécie.”
Quando falamos na hereditariedade pensamos muitas vezes em várias doenças como ataques cardíacos, diabetes ou mesmo Alzheimer, uma doença ligada directamente ao órgão cognitivo cérebro.
Sendo este estudo relacionado com o fator especiação e com a passagem da informação DNA nos espermatozóides, a investigadora do iBiMED, responsável pelo trabalho adianta que pode haver algumas destas ligações na questão da fertilização, mas também na questão das doenças cerebrais. E, como mexer no cérebro ainda é um assunto muito delicado, esta nova abordagem científica vai permitir estudar funções idênticas, nos testículos, sem criar roturas num órgão tão delicado como o cérebro.
“Aceder ao cérebro é mais complicado e aceder a amostras de sémen é mais simples. E ao estudar os dois órgãos em paralelo podemos tirar conclusões sobre determinadas disfunções ou deficiências em algumas proteínas que nos permitam de alguma maneira encontrar alvos para terapias ou diagnósticos para doenças que possam afetar os dois órgãos, ou até identificar algo novo que anteriormente não associávamos”, explica Margarida Fradilha.