Cerimónia em memória de nazis croatas causa polémica em Sarajevo

A Igreja Católica da Bósnia-Herzegovina quer celebrar uma missa, em Sarajevo, em memória dos soldados e civis croatas aliados do regime nazi. O anúncio foi feito pelo mais credenciado cardeal do país e está a gerar controvérsia e indignação por parte de líderes políticos, especialistas e grupos judeus.

RTP /
Fehim Demir - EPA

Todos os anos, no mês de maio, são organizadas cerimónias em memória dos croatas do Movimento Revolucionário Croata (ou forças Ustashas), mortos no fim da Segunda Guerra Mundial em Bleiburg, na Áustria.

O evento - organizado pela Igreja Católica da Bósnia e da Croácia e com a aprovação do parlamento croata - é habitualmente concretizado em território austríaco, mas este ano devido à pandemia da Covid-19 foi cancelado.

O arcebispo de Sarajevo, Vinko Puljic, anunciou na segunda-feira que a missa pelas vítimas de Bleiburg, e por todas as vítimas de guerra, vai realizar-se no próximo sábado, mas excecionalmente na catedral da cidade.

A "Missa por Bleiburg", preparada pela Conferência Episcopal da Bósnia-Herzegovina, vai ser celebrada na Catedral do Sagrado Coração de Jesus, em Sarajevo, com a participação de um número restrito de crentes, de forma a cumprir as restrições atuais devido à pandemia e a reduzir a possibilidade de qualquer incidente.

Contudo, o anúnico deste evento religioso chocou a maioria dos partidos políticos e organizações não-governamentais, assim como da Igreja Ortodoxa da Sérvia e dos líderes judeus.

Algumas ONG's antifascistas estão a organizar uma marcha pacífica, em protesto, para acontecer durante a missa.

O arcebispo da Igreja Ortodoxa Sérvia em Sarajevo lembrou que "mais de 10 mil habitantes de Sarajevo, sérvios, judeus, ciganos e outras pessoas que se opunham ao movimento Ustasha foram mortos" durante a guerra.

"Estão a realizar uma missa para aqueles que cometeram esses crimes", disse numa carta dirigida a Puljic.

Mas o cardeal bósnio rejeitou as acusações, frisando que orar pelas almas das vítimas não significava aprovação dos seus atos.

Embora também estejam a ser organizadas comemorações em Zagreb, na Croácia, os planos de realizar um evento em Sarajevo estão a ser vistos pelos críticos bósnios como uma provocação e uma tentativa de reerguer o regime de Ustasha - organização paramilitar croata associada ao fascismo e ao nacionalismo.

Tanto os três chefes de Estado da Bósnia como o presidente da câmara de Sarajevo já condenadaram a realização deste evento. Também a embaixada do Estados Unidos na Bósnia deixou duras críticas à organização.

Em comunicado, a Comunidade Judaica da Bósnia-Herzegovina, uma organização sem fins lucrativos que representa os judeus da região, denominou a celebração como um "serviço memorial para criminosos responsáveis ​​pelo sofrimento dos sarajevanos".

"Esta missa vai comemorar os 'carniceiros' das nossas mães, pais, avós e todos os nossos inocentes cidadãos mortos pelo NDH fascista", disseram os líderes judeus da Bósnia, Jakob Finci e Boris Kozemjakin, numa carta a Puljic. A Embaixada de Israel na Albânia juntou-se às vozes críticas e apelou "à igreja católica para reconsiderar a iniciativa".

O regime pró-nazi da Croácia - na altura, o chamado Estado Independente da Croácia (NDH), que incluía a Bósnia e partes da Sérvia - perseguiu e matou centenas de milhares de sérvios, judeus e croatas antifascistas, durante o período da Segunda Grande Guerra.

Em maio de 1945, os partidários anti-nazis croatas - alguns comunistas e associados à União Soviética - mataram milhares de soldados e apoiantes Ustashas que tinham fugido para os arredores de Bleiburg na Áustria.
População Bósnia surpreendida

O líder da comunidade judaica de Sarajevo, Jakob Finci, disse à Al Jazeera que a Bósnia "sempre foi antifascista".

Em Sarajevo, cerca de 11 mil pessoas foram assassinadas pelo regime Ustasha.

"Todos em Sarajevo ficaram surpreendidos com a decisão da missa pelas vítimas de Bleiburg, como lhe chamam, a ser realizada em Sarajevo".

"Acabamos de comemorar o Dia da Vitória na Europa e o Dia da Vitória sobre o fascismo, e sete dias depois, a Croácia está a organizar uma missa pelos criminosos de guerra fascistas que foram mortos em Bleiburg".

"Não acho que seja necessário que a Igreja Católica faça isso em Sarajevo. Existem outros lugares [para realizar o evento]", acrescentou o líder da comunidade judaica da capital bósnia.

De facto, o parlamento croata reintroduziu o patrocínio estatal do evento, em 2016, após ter sido revogado em 2012 por críticas de que estava a promover a reabilitação do regime Ustasha. Todos os anos, o parlamento croata doa 500.000 kunas (o que corresponde 71.500 dólares americanos) para as comemorações pelas vítimas de Bleiburg, embora as críticas à Croácia tenham aumentado nos últimos anos.

Nos últimos anos, as comemorações em memória dos nazis croatas, incluindo comemorações oficiais de Estado e da Igreja, tornaram-se comuns na Europa de Leste, onde estes são considerados por muitos como patriotas que lutaram contra o domínio soviético.
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