Cessar-fogo em Alepo quebrado por ataques entre exército e forças curdas
As tropas do Governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (FDS), lideradas pelos curdos, acusaram-se mutuamente de ataques hoje na província de Alepo (noroeste), três dias após um cessar-fogo na capital regional.
As FDS relataram ataques de artilharia contra a cidade de Deir Hafir, numa área que ao início do dia o Exército sírio tinha declarado como zona militar "fechada", depois de acusar os curdos sírios de enviarem reforços para a região.
"No âmbito da escalada atual, fações do Governo de Damasco atacaram casas de civis nas aldeias de Rasm Krum e Imam, localizadas a nordeste de Deir Hafir. As aldeias foram visadas com armamento pesado, além de dois ataques separados com `drones suicidas`", afirmaram os curdos sírios em comunicado.
Fontes curdas indicaram também que grupos ligados às autoridades centrais enviaram dois `drones` com bombas para as proximidades da barragem de Tishrin, que também foi alvo de fogo de artilharia, e que uma aldeia a sul de Deir Hafir foi atingida por foguetes.
O Exército sírio admitiu ter atacado com artilharia alegadas posições das FDS perto de Deir Hafir, segundo a agência noticiosa oficial SANA, que citou uma fonte militar não identificada.
De acordo com a SANA, esta foi uma resposta a uma ação anterior da aliança liderada pelos curdos contra a área próxima da cidade de Hamima.
A mesma fonte adiantou que as FDS terão também tentado detonar uma ponte entre duas aldeias perto de Deir Hafir, mas sem sucesso.
As FDS anunciaram no fim-de-semana a retirada dos dois distritos que controlavam na cidade de Alepo, após dias de combates com as forças governamentais.
Os confrontos, os mais violentos em Alepo desde a queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, causaram a morte de pelo menos 21 civis desde terça-feira e obrigaram à fuga de aproximadamente 155 mil pessoas, segundo dados oficiais.
A retirada dos combatentes foi realizada "graças à mediação de atores internacionais para pôr fim aos ataques e violações cometidos contra o nosso povo em Alepo", declararam as FDS, que denunciaram deslocações forçadas e raptos de civis.
No sábado, as autoridades sírias anunciaram estar a transferir combatentes entrincheirados no bairro curdo de Sheikh Maqsoud, em Alepo, para a zona autónoma curda mais a leste, depois de terem assumido o controlo do bairro.
O ministério acusou as Unidades de Proteção Popular (YPG, a espinha dorsal das FDS) de "violações repetidas dos acordos de segurança" inicialmente assinados com o Governo sírio em abril de 2015.
As FDS e a autoridade política do nordeste da Síria, por outro lado, acusaram Damasco de não ter feito o mínimo esforço para satisfazer as suas exigências de federação.
Damasco e os curdos sírios assinaram um acordo a 10 de março de 2025 para procurar uma solução para as autoproclamadas zonas autónomas do nordeste da Síria, que ainda escapam ao controlo do governo central, num processo que surgiu após a queda de Bashar al-Assad, há um ano, e ainda não se consolidou.
As negociações para integração das forças da aliança curda síria no exército do país, que deveria ter acontecido até final de 2025, têm-se arrastado e estão atualmente num impasse.