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Cessar-fogo. Hamas reclama vitória e aponta fracasso da estratégia israelita

Cessar-fogo. Hamas reclama vitória e aponta fracasso da estratégia israelita

Milhares de palestinianos celebraram o cessar-fogo entre Israel e o Hamas na última madrugada. Apesar da discrepância no número de mortes - mais de duas centenas em Gaza e 12 em Israel -, o Hamas diz ter saído vencedor. Há mesmo quem acredite que a estratégia militar israelita falhou ao focar-se mais na destruição do que na defesa, não tendo conseguido prever a quantidade de roquetes lançados desde Gaza.

Joana Raposo Santos - RTP /
O povo palestiniano também sentiu o cessar-fogo da última madrugada como uma vitória, com milhares a saírem às ruas para celebrar. Jehad Shelbak - Reuters

“Uma vitória para o povo palestiniano”. Foi desta forma que Ali Barakeh, da Jihad Islâmica, caracterizou o cessar-fogo, frisando que a derrota pertence ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.

“Celebramos esta vitória agora para que o mundo saiba porque celebramos. Netanyahu, o inimigo sionista, e o seu exército disseram que iam destruir os túneis contra a nossa resistência, mas eu digo-lhe que os nossos combatentes estão neste momento orgulhosamente nos túneis”, afirmou, por sua vez, Khalil al-Hayya, porta-voz do Hamas.

Os túneis não ficaram, porém, intactos. Israel diz ter conseguido atingir mais de 100 quilómetros desses caminhos subterrâneos, para além de ter matado mais de 200 palestinianos que diz serem militantes do Hamas, entre os quais 25 comandantes.

Outro argumento para a vitória palestiniana é o da alegada garantia dada por Israel quanto ao disputado bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, que esteve na origem da recente escalada de tensões entre os dois territórios.

“A resistência forjou uma nova equação e uma nova vitória”, destacou Osama Hamdan, responsável de relações externas do Hamas. A vitória quanto a Sheikh Jarrah já foi, no entanto, negada pelo ministro israelita da Defesa. “É completamento falso”, assegurou Benny Gantz.
“Roquetes continuarão a ser uma grande ameaça”
A estratégia militar do Hamas tem também sido apontada como razão para a vitória desse grupo, com muitos a considerarem o lançamento de roquetes desde Gaza uma resposta ousada à ocupação israelita da Palestina, especialmente em Jerusalém.

O Hamas e outros grupos de apoio lançaram mais de quatro milhares de roquetes em direção a cidades israelitas, com alguns a aterrar em Telavive. Apesar de, ao longo dos últimos 11 dias, 680 desses roquetes terem acabado por atingir a própria Faixa de Gaza e de outros 280 terem caído no mar, o Hamas conseguiu deixar Israel em dificuldades.

Nos últimos anos o grupo melhorou as suas capacidades militares e fez evoluir a sua rede de túneis, tendo desta vez surpreendido Israel ao lançar mais de 170 roquetes em apenas algumas horas.

Alguns especialistas no conflito israelo-palestiniano defendem mesmo que a estratégia israelita pecou por se focar mais nos ataques a túneis do Hamas do que nos roquetes que esse grupo lançava.

“As Forças de Defesa de Israel sabem que, em qualquer futuro conflito com grupos terroristas na Faixa de Gaza, os roquetes continuarão a ser uma grande ameaça à frente israelita. Isto porque, mesmo com o sistema de defesa Cúpula de Ferro [projetado para intercetar e destruir mísseis], alguns roquetes acabam por atingir Israel e ter resultados fatais”, considera Anna Ahronheim, jornalista do Jerusalem Post.
“O cessar-fogo é para pessoas que não sofreram”
O povo palestiniano também sentiu o cessar-fogo da última madrugada como uma vitória, com milhares a saírem às ruas para celebrar. Nas mãos, muitos levavam bandeiras da Palestina ou do Hamas.

Entretanto, um dos mercados ao ar livre em Gaza que fechou durante o conflito aproveitou as celebrações para reabrir. Para a dona de umas das bancas, “a vida vai voltar ao normal, até porque esta não é a primeira guerra, nem vai ser a última”. “O meu coração está em sofrimento, houve desastres, famílias mortas, e isso entristece-nos. Mas este é o nosso destino nesta terra: permanecermos pacientes”, disse à Associated Press.

Para Azhar Nsair, habitante da cidade de Beit Hanoun, em Gaza, não houve motivos para celebrar. “Vemos tanta destruição aqui, é a primeira vez na história que vemos isto”, lamentou. “O cessar-fogo é para pessoas que não sofreram, que não perderam os seus entes queridos, que não viram as suas casas ser bombardeadas”.

Pelo menos 243 palestinianos foram mortos devido aos recentes ataques entre Gaza e Israel, incluindo 66 crianças. Cerca de duas mil pessoas em Gaza ficaram feridas. As equipas de resgate continuam a tentar recuperar sobreviventes entre os escombros.
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