China "alterou" o clima para a celebração do centenário do Partido Comunista, revela investigação

por Andreia Martins - RTP
Em julho, a cerimónia de celebração dos 100 anos do Partido Comunista Chinês juntou dezenas de milhares de pessoas na Praça Tiananmen, em Pequim. Carlos Garcia Rawlins - Reuters

Um grupo de investigadores concluiu que Pequim criou chuva artificial, tendo conseguido reduzir a concentração de partículas poluentes no ar em véspera do centenário do Partido Comunista Chinês, que se assinalou a 1 de julho de 2021.

O estudo da Universidade de Tsinghua concluiu que as autoridades meteorológicas chinesas controlaram o clima com sucesso na antecipação de celebrações de cariz político. Em causa esteve o centenário do Partido Comunista Chinês, que se celebrou a 1 de julho.

Nesse dia, dezenas de milhares de pessoas marcaram presença na cerimónia que decorreu na Praça Tiananmen. Horas antes da celebração, uma extensa operação de disseminação de nuvens garantiu que as celebrações ao ar livre teriam céu limpo e uma redução na concentração de poluição atmosférica.

Pelo menos desde os Jogos Olímpicos de 2008, o Governo chinês tem sido um defensor entusiasta da tecnologia de “cultivo” de nuvens, tendo gasto milhares de milhões de dólares em esforços de manipulação do clima para proteger regiões agrícolas ou preparar terreno para eventos importantes.

Blueskying” é uma técnica de alteração do clima que consiste na adição de produtos químicos às nuvens, que faz com que as gotículas de água se aglomerem à sua volta e aumentem as probabilidades de precipitação.

De acordo com o estudo da Universidade de Tsinghua, citado pelo South China Morning Post, a chuva artificial reduziu a concentração de partículas PM2,5 em mais de dois terços e melhorou a qualidade do ar, de "moderado" para "bom", com base nos padrões da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Na véspera do evento, a 30 de junho, vários residentes de regiões montanhosas próximas de Pequim deram conta do lançamento de foguetes para o céu, dispositivos que transportaram iodo de prata até às nuvens para estimular a ocorrência de chuva.

Ainda de acordo com o jornal, a capital chinesa contava na altura com um aumento inesperado dos poluentes atmosféricos, num dos verões mais chuvosos de que há registo. Dias antes do evento que marcou a celebração do centenário, várias fábricas e outras atividades poluentes foram obrigadas a interromper operações.

O artigo científico em causa foi publicado na revista Environmental Science Journal e a investigação foi liderada por Wang Can, professor de ciências ambientais.

Para além do centenário do Partido Comunista Chinês, Pequim já desencadeou este tipo de alterações noutros momentos de grande relevância e exposição mediática do país, desde logo os Jogos Olímpicos de 2008 ou a Cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacifico (APEC) em 2014.

De resto, a cúpula do poder reunida no Conselho de Estado da República Popular da China já anunciou que pretende desenvolver um sistema de alteração do clima até 2025 para suprimir a ocorrência de granizo em certas regiões. Em 2019, as autoridades chinesas indicaram que as práticas de alteração artificial do clima ajudaram à redução de 70 por cento nos danos provocados pelo granizo nas regiões agrícolas de Xinjiang.
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