China. Xenofobia e nacionalismo aumentam à medida que casos de Covid-19 diminuem

China. Xenofobia e nacionalismo aumentam à medida que casos de Covid-19 diminuem

Enquanto a pandemia do novo coronavírus continua a assolar vários países, na China os números tendem a diminuir. Alegando que, atualmente, o contágio local é quase nulo, o Governo chinês foca-se agora no combate aos casos importados. Este aparente sucesso no controlo do surto tem, porém, revelado um lado negativo: o aumento da xenofobia nesse país, acompanhado por um cada vez maior nacionalismo.

Joana Raposo Santos - RTP /
Em Pequim e Xangai, estrangeiros têm sido proibidos de entrar em alguns estabelecimentos. Foto: Tingshu Wang - Reuters

No norte da China, um restaurante afixou um cartaz a celebrar o alastramento do novo coronavírus nos Estados Unidos. Pelo país tem circulado, nas redes sociais, uma ilustração com estrangeiros a serem colocados em caixotes do lixo. Na cidade de Guangzhou, residentes de origem africana têm sido forçados a quarentenas domiciliárias.

Estas são algumas das manifestações de xenofobia que muitos acreditam serem alimentadas pela propaganda do Governo chinês, que tem usado como prova da superioridade do Partido Comunista o sucesso da resposta do país ao novo coronavírus.

O aumento do nacionalismo e da xenofobia podem também estar a ser incentivados pelas recriminações vindas do estrangeiro, onde, por sua vez, também se verificou um aumento da xenofobia contra o povo chinês por ter sido nesse país que a Covid-19 teve origem.

“O nacionalismo é uma ameaça no sentido em que leva os outros governos a verem a China como uma ameaça”, disse ao New York Times Jessica Chen Weiss, professora na Universidade de Cornell.
Estrangeiros proibidos de entrar em alguns estabelecimentos
Se, por um lado, a China tem repetidamente alertado para o facto de os novos de casos de Covid-19 no país serem importados quase na sua totalidade, por outro as autoridades chinesas omitem, muitas vezes, que a importação é feita por cidadãos chineses que se encontravam em países estrangeiros e que estão agora a regressar ao país de origem.

No mês passado, o Governo chinês proibiu a entrada de todos os cidadãos estrangeiros no seu território, apesar de ter anteriormente criticado outros países que decidiram barrar a entrada de chineses quando era na China que a pandemia mais se fazia sentir. Jörg Wuttke, presidente da Câmara do Comércio da União Europeia na China, disse recentemente que as limitações impostas a estrangeiros por esse país asiático são “muito mais profundas” do que as impostas por outros países, o que representa “um desafio sem precedentes” para as empresas.

Em Pequim e Xangai, estrangeiros têm sido proibidos de entrar em algumas lojas e ginásios, naquela que faz parte de uma alegada campanha de combate ao vírus. “Temporariamente não estamos a aceitar clientes estrangeiros nem pessoas com temperatura superior a 37.3 graus”, lia-se num cartaz afixado à porta de um cabeleireiro em Pequim.

Outro caso foi denunciado por John Artman, editor norte-americano de uma publicação chinesa sobre tecnologia, que contou ao New York Times que não lhe foi permitida a entrada no seu escritório em Pequim, apesar de o Governo ter autorizado a abertura do mesmo na altura em que a pandemia abrandou na China.
Discriminação contra africanos
Já na cidade de Guangzhou, onde vive uma grande comunidade de africanos, habitantes negros têm sido despejados das suas casas ou de hotéis depois de cinco nigerianos terem testado positivo para a Covid-19.

Os africanos dessa cidade foram ainda ordenados a cumprir com a quarentena domiciliária, mesmo que não tivessem viajado recentemente para outros países ou que tivessem já testado negativo.

Nas redes sociais têm circulado fotografias de pessoas negras a dormirem nas ruas e outras de um restaurante da cadeia McDonald’s que afixou um cartaz a informar que os africanos não podiam entrar no estabelecimento.

“Não se pode aceitar a forma como estão a tratar as pessoas negras”, disse ao New York Times um empresário natural da República do Congo, residente na China. “Não somos animais”, acrescentou.

Apesar de denúncias deste género, as autoridades garantem que as medidas de prevenção devido à Covid-19 se aplicam de forma igual a chineses e a estrangeiros. Numa edição recente do jornal China Daily, gerido pelo Governo chinês, foi negada a discriminação. “Mas alguns estrangeiros optam por desviar-se das regras”, esclareceu a publicação.
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