Chovem mais de mil toneladas de microplásticos nos lugares mais recônditos dos EUA

Não há recanto nem lugar remoto do planeta que já não esteja poluído por microplásticos. Um novo estudo revela que o ar que respiramos está poluído por microplásticos e que estes minúsculos fragmentos viajam por todo o mundo através do vento, da chuva e da neve.

RTP /
Eric Gaillard - Reuters

Fala-se muito sobre a poluição por plásticos nos oceanos, mas os microplásticos estão em todo o lado: no ar que respiramos, no mar, nas cidades e até nos lugares mais recônditos e isolados do mundo, viajando através do vento ou da chuva.

Um novo estudo revela que chovem mais de mil toneladas de pequenos fragmentos de plástico, todos os anos, em parques nacionais e áreas selvagens do oeste dos Estados Unidos - o que corresponde a um valor entre 123 e 300 milhões de garrafas de plástico.

"Nenhum lugar está livre da poluição por plástico", lê-se no estudo divulgado esta sexta-feira na revista Science.

Os resultados recolhidos neste estudo realizado nos EUA vêm demonstrar como o plástico viaja pelo planeta. A investigação decorreu em 11 locais remotos, incluindo os parques nacionais da Grande Bacia e Crateras da Lua, do Grand Canyon e do Joshua Tree, e revelou que mais de mil toneladas de partículas microplásticas viajavam pela atmosfera, em forma chuva ou partículas de água, ou até mesmo no vento.

Alguns estudos anteriores já tinham mostrado a presença de microplásticos no ar da Europa, da China e do Ártico. Mas esta nova investigação vem, agora, estendê-la a zonas remotas dos EUA. Os cientistas recolheram 339 amostras em 11 parques nacionais e encontraram minúsculos pedaços de plástico em 98 por cento destas amostras.

Muitos destes fragmentos são restos de pedaços maiores de plástico, mas "a maioria dessas partículas de plástico são microfibras sintéticas usadas na confeção de vestuário", tecidos vários, carpetes e roupas, esclarece o documento.

"Os plásticos podem ser depositados, voltar para a atmosfera, transportados algum tempo, depositados e talvez recolhidos novamente", explicou, ao New York Times, Janice Brahney, cientista da Universidade de Utah que liderou a investigação.

As maiores partículas terão caído com a chuva e a neve, tendo as mais pequenas surgido com o tempo seco, transportadas pelo vento, acrescentou ainda a cientista.

A equipa de Brahney descobriu que os chamados microplásticos húmidos - designados assim por serem transportados nas condições atmosféricas húmidas - provavelmente foram fragmentados numa tempestade, tornando-se mais leves e, assim, começaram a circular na atmosfera, sendo mais tarde depositados no solo com as chuvas. Já os microplásticos secos, provavelmente imitavam os padrões de dispersão da poeira e viajavam longas distâncias através do vento.

Descobertas como esta mostram não só como as micropartículas se podem deslocar por todo o mundo, mas também quanto afetam todos os ecossistemas e como é urgente reduzir a poluição por plásticos.

Embora os efeitos no corpo humano destas micropartículas de plástico ainda sejam desconhecidos, os cientistas estão preocupados, uma vez que estas partículas são suficientemente pequenas para se alojarem no tecido pulmonar, causando lesões e, em casos de exposição recorrente, asma e até cancro.

É sabido que a poluição gerada pela poeira, fuligem e outras ameaças aéreas tem sido associada a ataques cardíacos e doenças respiratórias e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que este tipo de poluição tenha causado, em 2016, 4,2 milhões de mortes prematuras em todo o mundo.
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