CIA põe em dúvida "terrorismo" alegado por Israel contra organizações de direitos humanos

Um relatório confidencial da CIA afirma que não tem conhecimento de provas da alegação israelita de "terrorismo" que vem justificando o fecho de seis organizações humanitárias, bem como as buscas e as apreensões de património realizadas na semana passada nas suas sedes.

RTP /
Ibraheem Abu Mustapha, Reuters

Algumas dessas organizações já em outubro último tinham sido classificadas de terroristas, alegadamente por constituirem fachadas para a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP).
Essas organizações são as seguintes: 

  • Associação Addameer de Apoio aos Presos e Direitos Humanos
  • Al-Haq
  • Centro Bisan para Investigação e Desenvolvimento
  • Defesa das Crianças Internacional - Palestina
  • União de Comités de Trabalho Agrícolas
  • União de Comités de Mulheres Palestinianas
Logo na altura, vários países que são tradicionais aliados de Israel puseram em dúvida as acusações. Os EUA não as puseram em dúvida, embora também não tenham apoiado a alegação de terrorismo emitida contra as organizações humanitárias.

Depois, no início de 2022, Israel passou aos EUA dossiers de informação sobre estas organizações, e a CIA examinou os dossiers, mas sem ter encontrado aí provas da alegação de terrorismo. Uma fonte citada pelo Guardian afirma que o relatório da CIA "não diz que os grupos sejam culpados de alguma coisa".

Omar Shakir, director do grupo Human Rights Watch para Israel e Palestina, reagiu prontamente à divulgação das reservas contidas no relatório da CIA, afirmando que "os EUA deveriam apelar claramente ao Governo israelita para que reveja essas designações , e permita a essas organizações continuarem o seu trabalho de vital importância".

A isto acrescentou que a actual posição norte-americana sobre as organizações palestinianas de direitos humanos "põe em evidência uma lachna muito maior na política do Governo dos EUA sobre a questão israelo-palestiniana, e coloca claramente os EUA à margem do consenso no movimento de direitos humanos".

A quinta-feira passada um raid israelita contra as sedes dos seis grupos saldara-se no confisco de bens, no encerramento das sedes e na ilegalização dos grupos. 

O porta-voz da Administação Biden, Ned Price, comentou que os EUA estavam a analisar as alegações de terrorismo apresentadas por Israel e lembrou apenas que no ano passado, quando Israel aplicara a designação às seis organizações, "nós não procedemos a quaisquer designações, nem mudámos a nossa atitude em relação a essas organizações". Mas Price recusou comentar o conteúdo do relatório da CIA.

No passado mês de julho, a congressista Ayanna Pressley e mais 21 congressistas democratas enviaram uma carta ao secretário de Estado Antony Blinken, e à directora dos serviços de informações, Avril Haines, apelando a que enfrentassem a deriva israelita contra as organizações humanitárias.

Aí afirmavam, nomeadamente: "A falta de provas constatada para apoiar esta decisão suscita preocupações de que ela possa constituir uma medida profundamente repressiva, desenhada para criminalizar e silenciar destacadas e fundamentais organizações palestinianas de direitos humanos".
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