Ciclone obriga famílias a recomeçar do zero em Moçambique
Zuneima José, 44 anos, mãe de seis filhos, abana a cabeça ao descrever o drama da noite em que o ciclone Freddy se abateu sobre Quelimane, no centro de Moçambique.
"Só consegui recuperar a capulana", tecido tradicional que vestia na ocasião, porque o vento e chuva levaram tudo da sua habitação, uma casa de construção precária, conta à Lusa.
Na noite de sábado para domingo só se ouviam prantos de desespero e havia chapas de zinco pelo ar.
Agora está abrigada na escola primária de Icídua, subúrbios de Quelimane, sem saber por onde recomeçar a vida.
Há quem ainda procure por parentes desaparecidos por entre o entulho de lama e estacas que sobrou das casas, enquanto outros retiram roupas e utensílios.
"Muitas casas desabaram, não sabemos se no meio destas têm ainda crianças e pessoas" que podem estar soterradas, diz Nucha Constantino, recordando que houve crianças que morreram afogadas nas águas que inundaram o bairro.
Outra moradora, Linda Abudo, também receia que haja crianças vivas no meio dos destroços, assim como pessoas que moravam sozinhas e estão desaparecidas.
Outras estão desamparadas, nos centros de acolhimento.
As escolas eram os únicos sítios seguros, preparados para dar abrigo aos deslocados, mas também estão inundadas e as pessoas dormem por cima das carteiras, para escapar à água.
Sem apoio alimentar, muitos recorrem à fruta que cai dos coqueiros derrubados pelo vento, outros servem-se de cana-de-açúcar.
A água da chuva, que catam das chapas retorcidas no chão, serve para consumo.
Com os mesmos pregos e estacas que não se soltaram, Issufo Hibraim tenta fixar de volta as poucas chapas que não voaram para longe em Coalane, outro bairro devastado pelo ciclone.
"Não sei por onde recomeçar para repor a casa, por isso, estou a apanhar as chapas" para voltar a ter cobertura, explica à Lusa.
E mesmo diante do aviso de mau tempo, muitos pescadores artesanais arriscam regressar ao mar, por considerarem ser o único sustento que lhes permitirá voltar a ter chapas nos tetos esventrados pelo Freddy.
O ciclone perdeu força após atingir o seu pico às 20:00 de sábado (18:00 de Lisboa), avançou para o interior e é agora uma tempestade tropical.
Ainda assim, deverá provocar chuva intensa até quarta-feira no centro de Moçambique.
É a segunda vez que a intempérie se abate sobre o país, depois de um primeiro embate em 24 de fevereiro, provocando 10 mortes devido a condições adversas durante vários dias.
Desta vez, o balanço preliminar aponta para oito mortos em Moçambique e 66 no Maláui, país vizinho.