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Ciência. Chimpanzés têm empatia mútua e tratam de feridas uns dos outros com insetos
As relações entre populações de outras espécies são ainda alvo de estudo. Enquanto seres humanos, assumimos que os processos de socialização entre os animais divergem muito dos nossos. Mas uma investigação com chimpanzés, no Gabão, concluiu que estes animais são capazes de ter empatia uns pelos outros e até de tratar de ferimentos dos outros, de forma desinteressada. Outra curiosidade sobre estes animais é que, contrariamente aos seres humanos, que corremos a desinfetar uma ferida, usam insetos esmagados para as curar.
Foi em 2019 que uma equipa de biólogos começou a observar populações de chimpanzés no Gabão, na África Ocidental, e a estudar os seus comportamentos sociais. Ao fim de 15 meses de uma investigação divulgada na segunda-feira, na revista científica Current Biology, os cientistas concluíram que estes animais têm a capacidade de ajudar os outros membros da sua população “desinteressadamente”.
“As nossas observações contribuem para o debate atual sobre a existência de comportamentos pró-sociais em espécies não humanas”, lê-se no documento, que adianta que este tipo de comportamento se refere “a ações que se destinam a beneficiar o outro e parecem ser impulsionadas em humanos por preocupações empáticas de um pelo outro”.
Não é de agora que os chimpanzés são sugeridos como alvos de estudos “sobre a evolução de comportamentos pró-sociais”, uma vez que participam “numa variedade de atividades nas quais beneficiam com cooperação, como patrulhas territoriais, agressão concertada e caça”. No entanto, os vários estudos na área têm gerado dúvida quanto à capacidade de empatia dos chimpanzés, à semelhança dos humanos.
“As nossas observações contribuem para o debate atual sobre a existência de comportamentos pró-sociais em espécies não humanas”, lê-se no documento, que adianta que este tipo de comportamento se refere “a ações que se destinam a beneficiar o outro e parecem ser impulsionadas em humanos por preocupações empáticas de um pelo outro”.
Não é de agora que os chimpanzés são sugeridos como alvos de estudos “sobre a evolução de comportamentos pró-sociais”, uma vez que participam “numa variedade de atividades nas quais beneficiam com cooperação, como patrulhas territoriais, agressão concertada e caça”. No entanto, os vários estudos na área têm gerado dúvida quanto à capacidade de empatia dos chimpanzés, à semelhança dos humanos.
"Acho que esta é uma daquelas coisas incríveis que os animais podem fazer, que um dia vamos poder ler nos livros de biologia", disse à AFP Simone Pika, bióloga da Universidade de Osnabrück, na Alemanha, e coautora do estudo.
Insetos para tratar feridas
O projeto começou em 2019, quando uma chimpanzé adulta, a quem batizaram de Suzee, foi vista a observar uma ferida no pé do filho adolescente. De repente, Suzee apanhou um inseto no ar, colocou-o na boca, aparentemente apertou-o com os dentes e, a seguir, aplicou-o no ferimento do filho.
Este episódio aconteceu no Parque Nacional de Loango, na costa atlântica do Gabão, onde os cientistas estudam um grupo de 45 chimpanzés, uma espécie ameaçada de extinção. Nos 15 meses seguintes – de novembro de 2019 a fevereiro de 2021 - , os cientistas observaram vários chimpanzés a administrar o mesmo tratamento em si próprios. E em duas outras ocasiões observaram chimpanzés feridos, a serem tratados da mesma maneira por um ou vários membros da sua comunidade.
“Em 19 momentos, os indivíduos (cinco machos adultos, uma fêmea adulta, uma fêmea adolescente) aplicaram um inseto numa das suas próprias feridas usando a seguinte sequência comportamental: primeiro apanharam um inseto; segundo, imobilizaram-no colocando e/ou apertando o inseto entre os lábios; terceiro, colocaram o inseto numa superfície exposta da ferida e moveram o inseto na superfície usando as pontas dos dedos ou os lábios; quarto, extraíram o inseto da ferida com a boca ou com os dedos”, explicam os cientistas no estudo.
A terceira e a quarta etapa deste processo são, normalmente, várias vezes repetidas, segundo observaram os investigadores. Contudo, “as espécies de insetos utilizadas ainda não foram identificadas”, embora sejam, por norma, “insetos voadores alados” ou “capturados debaixo de uma folha ou galho”. De acordo com as observações, eram normalmente insetos com cerca de 5 milímetros de tamanho e de cor mais escura.
Noutros três episódios, foram observados “diferentes chimpanzés, a aplicarem ou a moverem um inseto não na sua própria ferida, mas na ferida de outro chimpanzé”, acrescenta ainda o estudo.
“A 13 de novembro de 2019 , uma fêmea adulta, Suzee, pegou num inseto e aplicou-o numa ferida aberta de aproximadamente 2 centímetros no pé do seu filho adolescente”, explica. “Posteriormente, extraiu e reaplicou o inseto mais duas vezes usando a boca e os dedos”.
Em outubro do ano seguinte, outra fêmea adulta foi observada a fazer o mesmo processo e a tratar da ferida de um chimpanzé macho. E, três meses depois, outro macho foi visto a tratar de uma ferida de outro individuo da comunidade.
“Dado o contexto inequívoco em que ocorreu o comportamento observado (indivíduos feridos com feridas abertas), sugerimos que possam representar mais um caso de comportamento medicamentoso em animais não humanos”, concluem os investigadores.
O projeto começou em 2019, quando uma chimpanzé adulta, a quem batizaram de Suzee, foi vista a observar uma ferida no pé do filho adolescente. De repente, Suzee apanhou um inseto no ar, colocou-o na boca, aparentemente apertou-o com os dentes e, a seguir, aplicou-o no ferimento do filho.
Este episódio aconteceu no Parque Nacional de Loango, na costa atlântica do Gabão, onde os cientistas estudam um grupo de 45 chimpanzés, uma espécie ameaçada de extinção. Nos 15 meses seguintes – de novembro de 2019 a fevereiro de 2021 - , os cientistas observaram vários chimpanzés a administrar o mesmo tratamento em si próprios. E em duas outras ocasiões observaram chimpanzés feridos, a serem tratados da mesma maneira por um ou vários membros da sua comunidade.
“Em 19 momentos, os indivíduos (cinco machos adultos, uma fêmea adulta, uma fêmea adolescente) aplicaram um inseto numa das suas próprias feridas usando a seguinte sequência comportamental: primeiro apanharam um inseto; segundo, imobilizaram-no colocando e/ou apertando o inseto entre os lábios; terceiro, colocaram o inseto numa superfície exposta da ferida e moveram o inseto na superfície usando as pontas dos dedos ou os lábios; quarto, extraíram o inseto da ferida com a boca ou com os dedos”, explicam os cientistas no estudo.
A terceira e a quarta etapa deste processo são, normalmente, várias vezes repetidas, segundo observaram os investigadores. Contudo, “as espécies de insetos utilizadas ainda não foram identificadas”, embora sejam, por norma, “insetos voadores alados” ou “capturados debaixo de uma folha ou galho”. De acordo com as observações, eram normalmente insetos com cerca de 5 milímetros de tamanho e de cor mais escura.
Noutros três episódios, foram observados “diferentes chimpanzés, a aplicarem ou a moverem um inseto não na sua própria ferida, mas na ferida de outro chimpanzé”, acrescenta ainda o estudo.
“A 13 de novembro de 2019 , uma fêmea adulta, Suzee, pegou num inseto e aplicou-o numa ferida aberta de aproximadamente 2 centímetros no pé do seu filho adolescente”, explica. “Posteriormente, extraiu e reaplicou o inseto mais duas vezes usando a boca e os dedos”.
Em outubro do ano seguinte, outra fêmea adulta foi observada a fazer o mesmo processo e a tratar da ferida de um chimpanzé macho. E, três meses depois, outro macho foi visto a tratar de uma ferida de outro individuo da comunidade.
“Dado o contexto inequívoco em que ocorreu o comportamento observado (indivíduos feridos com feridas abertas), sugerimos que possam representar mais um caso de comportamento medicamentoso em animais não humanos”, concluem os investigadores.
Sem protestarem contra o tratamento, os chimpanzés feridos ficaram felizes e tranquilos em todos os episódios observados pela equipa de investigação.
“É preciso muita confiança para deixar colocar um inseto numa ferida aberta”, disse Pika. “Eles parecem entender que, se se fizer isso, a ferida melhora. É incrível".
“A automedicação – onde os indivíduos usam partes de plantas ou substâncias não nutritivas para combater peptógenos ou parasitas – foi observada em várias espécies de animais, incluindo insetos, répteis, pássaros e mamíferos”, disse ainda a bióloga. “Os nossos dois parentes vivos mais próximos, os chimpanzés e os bonobos, por exemplo, engolem folhas de plantas com propriedades anti-helmínticas e mastigam folhas amargas que têm propriedades químicas para matar parasitas intestinais”.
No entanto, a aplicação externa de matéria animal em feridas abertas nunca tinha sido, até agora, documentada.
"As nossas observações fornecem a primeira prova de que os chimpanzés capturam insetos regularmente e que os aplicam em feridas abertas. Agora pretendemos investigar as potenciais consequências benéficas de um comportamento tão surpreendente", afirmou também o primatologista Tobias Deschner.
Os cientistas não conseguiram identificar o inseto que foi usado nas feridas, mas acreditam que seja um inseto voador e que pode conter substâncias anti-inflamatórias que têm um efeito calmante.
As aves, os ursos, os elefantes e outros animais já tinham sido observados a automedicar-se, por exemplo, comendo plantas. Mas o que é único nos chimpanzés é que eles tratam-se não apenas a si próprios, mas também ajudam os outros.
Alguns cientistas, no entanto, ainda duvidam da capacidade de as espécies animais terem comportamentos pró-sociais, como cuidar desinteressadamente dos outros. Nos humanos, o comportamento pró-social está geralmente ligado à empatia, uma hipótese que vale a pena estudar, diz Pika.
“É preciso muita confiança para deixar colocar um inseto numa ferida aberta”, disse Pika. “Eles parecem entender que, se se fizer isso, a ferida melhora. É incrível".
“A automedicação – onde os indivíduos usam partes de plantas ou substâncias não nutritivas para combater peptógenos ou parasitas – foi observada em várias espécies de animais, incluindo insetos, répteis, pássaros e mamíferos”, disse ainda a bióloga. “Os nossos dois parentes vivos mais próximos, os chimpanzés e os bonobos, por exemplo, engolem folhas de plantas com propriedades anti-helmínticas e mastigam folhas amargas que têm propriedades químicas para matar parasitas intestinais”.
No entanto, a aplicação externa de matéria animal em feridas abertas nunca tinha sido, até agora, documentada.
"As nossas observações fornecem a primeira prova de que os chimpanzés capturam insetos regularmente e que os aplicam em feridas abertas. Agora pretendemos investigar as potenciais consequências benéficas de um comportamento tão surpreendente", afirmou também o primatologista Tobias Deschner.
Os cientistas não conseguiram identificar o inseto que foi usado nas feridas, mas acreditam que seja um inseto voador e que pode conter substâncias anti-inflamatórias que têm um efeito calmante.
As aves, os ursos, os elefantes e outros animais já tinham sido observados a automedicar-se, por exemplo, comendo plantas. Mas o que é único nos chimpanzés é que eles tratam-se não apenas a si próprios, mas também ajudam os outros.
Alguns cientistas, no entanto, ainda duvidam da capacidade de as espécies animais terem comportamentos pró-sociais, como cuidar desinteressadamente dos outros. Nos humanos, o comportamento pró-social está geralmente ligado à empatia, uma hipótese que vale a pena estudar, diz Pika.