Cimeira da Liga Árabe em Argel com muitas crises políticas e militares na agenda

Os conflitos e divisões persistentes na Síria, Líbia e Iémen, a aproximação de vários Estados-membros a Israel, o conflito israelo-palestiniano e o Saara Ocidental centram a 31.ª Cimeira da Liga Árabe, que decorre terça e quarta-feira em Argel.

Lusa /

A Liga Árabe, que congrega 22 países, reuniu-se pela última vez em cimeira em março de 2019, em Tunes, antes da pandemia, e a reunião de Argel conta com a presença do secretário-geral da ONU, António Guterres, que chega hoje à capital argelina e que, à margem dos trabalhos, terá vários encontros, dois deles com os presidentes da Argélia, Abdelmajid Tebboune, e da organização pan-árabe, Ahmed Aboul Gheit.

Nos três últimos anos, a Liga Árabe, historicamente apoiante da causa palestiniana, viu vários Estados membros a aproximarem-se de Israel: os Emirados Árabes Unidos normalizaram as relações em 2020 no âmbito dos Acordos de Abraão, negociados pelos Estados Unidos na era de Donald Trump, o mesmo sucedendo com o Bahrein, Marrocos e Sudão.

Esta reaproximação é tanto mais significativa no contexto da cimeira porquanto o anfitrião argelino é um feroz defensor dos palestinianos, tendo patrocinado em meados deste mês um acordo de reconciliação entre fações palestinianas rivais, embora a possibilidade de o pacto se materializar ser aparentemente mínima.

A cooperação em termos de segurança estabelecida pelo vizinho marroquino com Israel, após a normalização das relações com Telavive, exacerbou as tensões entre os dois "irmãos inimigos" do Magrebe, já elevadas devido a profundas divergências no Saara Ocidental -- Rabat defende uma autonomia alargada para a antiga colónia espanhola enquanto a Frente Polisário exige um referendo de autodeterminação definido pelos acordos alcançados na ONU em 1991 -- que levaram à rutura das relações diplomáticas em agosto de 2021, por iniciativa de Argel.

Dissipadas ficaram hoje as dúvidas quanto à presença na cimeira do rei Mohammed VI, de Marrocos, a convite de Argel, que procurava, embora simbolicamente, diminuir as tensões entre os dois países. No lugar do rei, está já em Argel o ministro dos Negócios estrangeiros marroquino, Nasser Burita.

Se o conflito israelo-palestino e a situação na Síria, Líbia e Iémen estão na agenda da cimeira, os líderes árabes terão, porém, de se envolver em verdadeiras acrobacias diplomáticas na formulação das resoluções finais, que terão de ser aprovadas por unanimidade, para evitar ofender este ou aquele "peso pesado" da organização.

"A cimeira tem de enviar uma mensagem de apoio aos palestinianos, garantindo-lhes que não serão sacrificados pelos Acordos de Abraão", disse o politólogo suíço-argelino Hasni Abidi, diretor do Centro de Estudos e Pesquisas do Mundo Árabe e Mediterrâneo (CERMAM) em Genebra, em declarações à France-Presse (AFP).

Mas a cimeira, que Argel definiu ter como pano de fundo "a unidade árabe", tem vários obstáculos face ao facto de alguns países, nomeadamente do Golfo, terem já indicado que não irão estar lá representados pelos respetivos chefes de Estado.

Assim, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, líder de facto do reino, não irá a Argel, oficialmente por causa de um problema de audição. Segundo a imprensa árabe, os líderes dos Emirados e do Bahrein também estarão ausentes.

"Os Estados árabes que se normalizaram com Israel não estão entusiasmados com a ideia de uma condenação às suas decisões. A vontade do Presidente Tebboune de colocar a questão palestiniana no centro das discussões em Argel, bem como a declarações feitas anteriormente não os tranquilizam", sublinhou Abidi.

Em relação ao conflito sírio, a Argélia procurou nos bastidores reintegrar Damasco na Liga Árabe -- o país foi expulso no final de 2011 no início da revolta contra o regime de Bashar al-Assad -- mas, a pedido do próprio regime sírio, Argel deixou cair a ideia.

"Na atual situação, convidar a Síria para a cimeira de Argel envolve um alto risco. A Argélia percebeu as consequências dessa presença", referiu Abidi.

Outro politólogo citado pela AFP, o francês Pierre Boussel, investigador associado da Fundação para a Investigação Estratégica (FRS) em França, referiu a este propósito que o regresso da Síria à Liga Árabe era, no entanto, um desejo da Rússia, aliada de Damasco, mas também de Argel.

"Damasco teve que se conformar com as evidências. Com a continuação da guerra civil, um retorno vitorioso do presidente al-Assad à Liga era ilusório. A Rússia renuncia assim a uma passagem forçada que teria afetado as relações com os países árabes já muito escaldados pelo impacto económico do conflito ucraniano", opinou.

Na sexta-feira passada, e noutro sentido, o secretário-geral da Liga Árabe pediu aos participantes na cimeira que se centrassem no desenvolvimento de uma "visão árabe integrada" para enfrentar os desafios da segurança alimentar na região.

"A onda de choque da guerra na Europa poderá alastrar-se até Argel, com a escassez de cereais, uma inflação galopante e preocupações com as novas rotas energéticas. A Liga terá de mostrar que é capaz de se apresentar coesa e solidária entre os diversos Estados membros, que é o que lhe falta desde o início da crise", observou Boussel.

Evidentes são também as divergências em relação à guerra no Iémen, que já matou mais de 130.000 pessoas, tanto civis como combatentes, e exacerbou a fome e a miséria em todo o país, com o conflito a ser considerado pela ONU como a maior tragédia humanitária do planeta, atualmente, com 80% da população do país a necessitar de algum tipo de assistência para colmatar as suas necessidades básicas.

Os Huthis são apoiados pelo Irão, com uma coligação liderada pela Arábia Saudita a apoiar o Iémen.

Na Líbia, e após eleições inconclusivas, dois Governos disputam o poder no país: um sediado em Trípoli (oeste) e liderado por Abdelhamid Dbeibah desde o início de 2021 com o reconhecimento da comunidade internacional e outro eleito em fevereiro passado pelo Parlamento, com Fathi Bachagha à frente, apoiado pelo marechal Khalifa Haftar, homem forte do leste líbio.

Quanto a António Guterres, além de, à margem da cimeira, ter encontros com Tebboune e com Aboul Gheit, fará uma intervenção na cerimónia de abertura do encontro, em que, segundo fontes das Nações Unidas, destacará a forte parceria entre a ONU e a Liga Árabe, enfatizando o papel "vital" das organizações para promover a paz, o desenvolvimento sustentável e os direitos humanos.

 

 

Tópicos
PUB