Cimeira Ibero-americana é prioridade da política externa espanhola

A XV Cimeira Ibero-americana, marcada para a próxima semana em Salamanca, é a prioridade da política externa espanhola para a actual legislatura, devendo procurar "acordos, em vez de discursos", afirmou hoje Jose Luis Rodríguez Zapatero.

António Sampaio, da Agência Lusa /

A XV Cimeira Ibero-americana, marcada para a próxima semana em Salamanca, é a prioridade da política externa espanhola para a actual legislatura, devendo procurar "acordos, em vez de discursos", afirmou hoje Jose Luis Rodríguez Zapatero.

"Esta vai ser uma cimeira de acordos, mais o que de discursos, de factos e não apenas de contactos. Para Espanha, esta Cimeira Ibero-americana é talvez o objectivo da política externa mais importante desta legislatura", disse hoje o chefe do Governo espanhol.

Zapatero falava num encontro alargado com um grupo de jornalistas no Palácio do Governo em Madrid, antes da reunião dos chefes de Estado e de governo dos 22 Estados membros da comunidade ibero-americana, a 14 e 15 de Outubro na cidade espanhola de Salamanca.

Traçando uma agenda optimista e "confiante", o líder espanhol reafirmou a importância de consolidar interna, e exteriormente, a voz da comunidade ibero-americana, passando de "um sistema de cimeiras para um sistema de instituições ibero-americanas".

O encontro deverá centrar-se em três grandes temas de debate: o fenómeno migratório, a economia e a cooperação nas áreas política, cultural e educativa.

Na questão migratória, Espanha quer fazer avançar com a criação de "novos instrumentos financeiros", com base nas remessas dos imigrantes, que possam fomentar o desenvolvimento social nos países de origem.

"Queremos que esta imigração que beneficia Espanha, beneficie ainda mais todos os países de onde os imigrantes provêem", disse, aludindo ao caso espanhol onde há cerca de um milhão de imigrantes latino-americanos.

"Tem que se dar ao fluxo de remessas uma utilidade e um potencial de rentabilidade social", explicou, afirmando que é "uma das grandes ambições" do seu executivo procurar, "uma via de cooperação de instituições financeiras que emprestem, em funções dessas remessas, às famílias dos imigrantes" para qualquer necessidade social básica.

No capítulo económico, Zapatero destacou em particular a novidade do fórum empresarial que antecede a Cimeira, cujo objectivo central é "abrir uma nova etapa de investimentos, de alianças entre grupos empresariais e de valorização dos processos de integração económica, no continente americano e na sua relação com a Europa".

Igualmente importantes - destacou - são temas como a questão energética e a busca de "posições comuns da comunidade ibero-americana perante os desafios da globalização", especialmente no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC).

"A América Latina está a crescer a uma média de 06 por cento e esse crescimento económico tem de se converter em crescimento social. Tem de se aproveitar a onda de investimentos (na região) para que a América Latina cresça e se iguale socialmente", frisou.

No que toca à cooperação política, os representantes dos 22 países deverão procurar uma agenda comum ibero- americana no espaço internacional, no seio das Nações Unidas, das relações transatlânticas e "na consolidação dos processos de institucionalização democrática e Estado de Direito".

A nível cultural, o objectivo é "relançar as duas línguas que unem a comunidade ibero-americana, que crescem no mundo e que penetram em muitos âmbitos culturais", apostando ainda na consolidação do projecto da Carta Cultural Ibero-americana, afirmou Zapatero.

Para o sector educativo está reservado talvez um dos projectos mais complexos, a proposta espanhola de trocar a dívida externa dos países latino-americanos por apoios para a educação, uma iniciativa já a ser ensaiada por Madrid com algumas capitais da região.

"Gostaríamos que este possa ser um plano a alargar a países desenvolvidos, para benefício da América Latina", frisou.

Paralelamente, Zapatero defende a necessidade de mais cooperação e de uma melhor relação entre os países ibero- americanos, no que toca à formação e profissionalização.

"Há um crescente número de ibero-americanos, a elite do futuro imediato, que se estão a formar em Espanha com o apoio de bolsas. Há que criar uma comunidade de doutorados, de formados da América Latina, em Espanha e Portugal", comentou.

Aludindo à questão da segurança, e em particular no que toca ao combate a grupos criminosos organizados, Zapatero sublinhou que qualquer medida só terá êxito "quando se construir o espaço judicial ibero-americano".

Relembrando que "a penetração e a extensão das organizações criminosas continuam a ganhar peso", o governante espanhol disse que é essencial combater a criminalidade "como garantia de democracia".

"Isto é determinante. A construção de um espaço judicial ibero-americano, que tem de ser acompanhada por uma muito boa coordenação no âmbito dos serviços de informação", disse.

"Todos os fenómenos como os movimentos migratórios, que podem esconder enriquecimento ilícito, terão que ter também uma resposta de segurança activa, e este é um dos desafios para todos os países", sublinhou.

Noutra óptica, Espanha quer ainda usar a cimeira de Salamanca para fomentar o processo de consolidação interna da comunidade ibero-americana e para internacionalizar a voz "comum" dos Estados-membros.

Um projecto alicerçado na recentemente criada Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), o órgão de apoio institucional, técnico e administrativo da Conferência Ibero-americana, e que serve de elo entre as cimeiras em si, as conferências ministeriais e os programas de cooperação no seio da comunidade ibero-americana.

Um processo de institucionalização e de exteriorização, consolidado, segundo Zapatero, na personalidade do secretário-geral, Enrique Iglesias, que servirá tanto de elo entre os 22 membros da comunidade, como de voz junto de fóruns internacionais, entre os quais as Nações Unidas, onde a SEGIB vai pedir estatuto de observador.

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