Cinco anos após o 11 de Setembro persiste a ameaça terrorista

Os atentados de 11 de Setembro de 2001 determinaram uma longa guerra contra o terrorismo internacional que, cinco anos depois, se debate com o difícil equilíbrio entre segurança e liberdade perante uma ameaça que continua muito presente.

Agência LUSA /

Às 8:46 do dia 11 de Setembro de 2001, um avião de passageiros lançou-se a alta velocidade contra a torre norte do World Trade Center, na baixa de Manhattan, Nova Iorque. Às 9:03, um segundo avião embate e atravessa a torre sul, despenhando-se no solo.

As colisões esventraram as Torres Gémeas e provocaram gigantescas nuvens de fumo e labaredas que, cerca de hora e meia mais tarde, levaram à desintegração e desmoronamento de ambas as torres, onde trabalhavam habitualmente 50.000 pessoas.

Meia hora depois do segundo embate, quando as atenções do país e do mundo se centravam nos acontecimentos em Nova Iorque, um terceiro avião desviado despenha-se sobre o Pentágono, em Washington, quando já estava em curso a evacuação dos principais edifícios governamentais - Casa Branca, Capitólio, Departamento de Estado, entre outros.

Mais meia hora e, às 10:03, um quarto avião despenhou-se num campo aberto na Pennsylvania, fracassando na tentativa de se lançar contra o Capitólio ou a Casa Branca porque, foi mais tarde determinado, os passageiros souberam o que acabara de acontecer em Nova Iorque, revoltaram-se e tentaram dominar os terroristas.

Por detrás dos maiores atentados terroristas de sempre, reivindicados um ano depois pela Al-Qaida, estiveram 19 jovens árabes extremistas que, armados com x-actos, canivetes e latas de `spray` de pimenta, sequestraram e desviaram quatro voos domésticos.

Para os financiar, as autoridades norte-americanas concluíram que bastaram cerca de 500.000 dólares, menos de 400 mil euros, o preço actual de um estúdio em Manhattan.

"Um dia de choque e de sofrimento sem precedente na história dos Estados Unidos", lê-se na abertura do relatório da comissão especial do Congresso que investigou - e concluiu - que muitas falhas permitiram que os atentados fossem cometidos.

Quase 3.000 pessoas morreram no 11 de Setembro: 2.602 no World Trade Center, 125 no Pentágono e 246 nos quatro aviões desviados.

Muitos milhares ficaram feridos e, segundo um estudo divulgado esta semana, sete em cada dez pessoas que participaram nos trabalhos de resgate, limpeza e reconstrução do "ground zero", sofreram ou sofrem de problemas pulmonares provocados pela exposição às poeiras tóxicas.

George W. Bush, que após os atentados foi rapidamente levado para uma base militar por razões de segurança, regressou ao fim do dia a Washington para anunciar a sua determinação em castigar os autores dos ataques e todos quantos os protegeram.

Definido o alvo principal, a Al-Qaida de Usama bin Laden, os Estados Unidos lançaram menos de um mês depois uma ofensiva militar de larga escala contra o Afeganistão, cujo regime talibã fora insistentemente pressionado a entregar Bin Laden e outros responsáveis da rede terrorista aos quais dava guarida.

O regime fundamentalista foi afastado, um governo democrático foi instalado e centenas de alegados terroristas foram transportados, à revelia do direito internacional, para centros de detenção instalados em países terceiros, o mais famoso e polémico dos quais o Campo Raio-X, depois ampliado e rebaptizado Campo Delta, instalado na base norte-americana de Guantánamo (Cuba).

Quase cinco anos depois, Bin Laden continua por capturar e a violência no Afeganistão aumenta a cada ano que passa, mas não restam dúvidas de que a Al-Qaida foi duramente atingida na sua estrutura.

No entanto, os Estados Unidos são os primeiros a reconhecer que o inimigo se adaptou e está hoje mais disperso, organizando-se em pequenas células que agem em nome de uma ideologia extremista e que não dependem de um comando centralizado.

Também no âmbito da luta anti-terrorista lançada após o 11 de Setembro, George W. Bush definiu em 2002 aquilo a que chamou "o eixo do mal" - Iraque, Irão e Coreia do Norte - e em 2003 avançou para mais uma campanha militar, desta vez contra o Iraque de Saddam Hussein.

O regime ditatorial foi afastado, o ex-ditador foi detido e está a ser julgado, um governo democrático foi eleito e centenas de alegados resistentes e terroristas foram detidos, muitos em condições denunciadas como contrárias ao respeito pelos direitos humanos, de que foi exemplo o escândalo dos abusos na prisão de Abu Ghraib, nos arredores de Bagdad.

Mais de três anos depois, a alegada associação entre a resistência sunita e "divisão" iraquiana da Al-Qaida continua a matar dezenas de pessoas por dia - apesar da eliminação do seu líder, Abu Musab al-Zarqawi - e as divisões de base étnico-religiosa, cada vez mais patentes, ameaçam o processo político.

Nos meses e anos que se seguiram ao 11 de Setembro, os Estados Unidos e dezenas de outros países quiseram também prevenir futuros ataques aprovando legislações e regras mais duras, alargando competências das forças de segurança em matéria de investigação e detenção de suspeitos de terrorismo, endurecendo as leis de imigração, apertando medidas de controlo em aeroportos, portos e fronteiras.

Tornou-se então evidente o difícil equilíbrio entre segurança e direitos que marca o mundo pós-11 de Setembro e, à margem das novas restrições aceites pela maioria como "um mal necessário", desenvolveram-se acções que fizeram ressurgir a discussão sobre se os fins justificam todos os meios.

É o caso dos chamados voos da CIA, nos quais aviões ao serviço da Agência Central de Informações terão alegadamente transportado suspeitos de terrorismo totalmente à margem das leis internacionais com a suposta conivência de vários governos europeus, que terão autorizado escalas ou mesmo a instalação de centros de detenção ilegais nos seus territórios.

A par de interrogatórios e detenções ilegais, no entanto, os tribunais norte-americanos julgaram desde o 11 de Setembro milhares de suspeitos de terrorismo, embora apenas um por envolvimento directo nos atentados daquele dia.

Um estudo agora revelado mostra que o número de processos por terrorismo nos tribunais dos Estados Unidos após o 11 de Setembro registou um aumento significativo, embora menos de metade (625) dos condenados (1.329) tenha sido sentenciada a penas de prisão e, destes, apenas 14 a penas superiores a 20 anos.

Para o Departamento de Justiça, as penas de prisão "não são uma medida adequada para determinar o êxito da estratégia anti- terrorista" e, se as condenações são "poucas" e "leves", é porque resultam do esforço do Ministério Público para acusar potenciais terroristas antes de estes agirem, levando-os a julgamento por fraudes, falsas declarações ou violação das regras de imigração.

Pelos atentados de 11 de Setembro em si, só uma pessoa foi julgada nos Estados Unidos: Zacarias Moussaoui, um franco-marroquino de 37 anos, condenado a 03 de Maio último a prisão perpétua num estabelecimento de segurança máxima, depois de em tribunal se declarar culpado de conspiração terrorista e jurar fidelidade a Bin Laden.

O Ministério Público pediu a pena capital, mas Moussaoui não pôde ser condenado à morte porque, no dia dos ataques, estava preso, havia três semanas, acusado de violação das leis de imigração depois de o seu comportamento ter levantado suspeitas numa escola de pilotagem do Minnesota.

Ao longo destes cinco anos, muito se especulou sobre se Moussaoui seria o 20º pirata do ar, o pirata de um quinto avião ou o encarregado de um atentado a cometer após o 11 de Setembro. Nenhuma das hipóteses foi confirmada no julgamento e, dias depois deste terminar, Bin Laden divulgou uma mensagem áudio em que afirmava que o franco-marroquino nada teve a ver com aqueles atentados.

O ênfase dado ao combate ao terrorismo no mundo pós-11 de Setembro permitiu frustrar vários atentados em fase de preparação, entre os quais a alegada conspiração desmantelada há um mês pelas autoridades britânicas cujo objectivo era fazer explodir em pleno voo uma dezena de aviões comerciais com destino aos Estados Unidos.

Mas nem todos puderam ser evitados e grandes atentados terroristas atribuídos ou reivindicados pela Al-Qaida continuaram a ser cometidos: Bali (Outubro de 2002, 202 mortos), Madrid (Março de 2004, 191 mortos), Londres (Julho de 2005, 52 mortos), Charm-el-Cheikh (Julho de 2005, 90 mortos), Amã (Novembro de 2005, 57 mortos) e Bombaim (Julho de 2006, 207 mortos).

Cinco anos depois, "há mais terrorismo, há mais morte, há mais guerra (Ó) e, sobretudo, há violações constitucionais", disse há dias o realizador de cinema Oliver Stone, autor de uma das primeiras longas- metragens sobre os atentados, o recém-estreado "World Trade Center".

"Alguém me perguntou se [o filme] tinha sido feito cedo demais. Penso que foi feito tarde demais: Temos de acordar e de acordar depressa", acrescentou.


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