Cinco portugueses na lista de desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina

Um português vai ser evocado como vítima da ditadura militar argentina mas dados recentemente divulgados revelam que pelo menos mais quatro cidadãos nacionais morreram na "guerra suja" movida pela junta militar contra a oposição.

Marta Clemente© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Pelo menos cinco portugueses estão entre os milhares de desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina, que teve início em 1976 e durou sete anos, segundo dados revelados pelo governo argentino e consultados pela Agência Lusa.

Francisco da Fonseca Pereira (64 anos), Rudolfo António Ferreira Coelho Decler, (35 anos), José Lourenço, Francisco Mapril D`asensão (70 anos) e Maria José Sancho da Graça Ferreira são os nomes dos portugueses que constam da lista oficial disponível em vários sítios do governo argentino na Internet.

Da pouca informação existente sobre esses portugueses, sabe-se apenas o dia em que alguns deles desapareceram: Rudolfo António Ferreira Coelho Decler, luso-descendente, foi enviado a 16 de Abril de 1976 para a Escola de Mecânica da Armada, em Buenos Aires, o mais conhecido dos centros de tortura da Junta Militar, e onde, segundo relatos, terá sido morto.

No dia 17 de Novembro de 1977, Francisco da Fonseca Pereira desapareceu quando se encontrava na avenida da Independência e Combate de Los Pozos, em Buenos Aires.

Contactado pela agência Lusa, o embaixador de Portugal em Buenos Aires, Joaquim Ferreira Marques, confirmou que os nomes José Lourenço e Francisco da Fonseca Pereira estão registados na embaixada e que o último chegou à Argentina em 1948.

A Lusa tentou obter mais informações acerca desses cinco portugueses, mas até ao momento não foi possível, aguardando igualmente por uma posição do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O embaixador Joaquim Ferreira Marques admitiu ainda ser possível que venham a surgir mais portugueses na lista porque o inventário dos nomes dos desaparecidos é uma iniciativa recente.

"Só com este governo é que as listas começaram a ser actualizadas. Até aqui, não havia uma sistematização das listas dos desaparecidos", afirmou.

Em declarações à Lusa, o conselheiro das Comunidades Portuguesas na Argentina, António Canas, ali emigrante desde 1961, disse não ter conhecimento da existência de portugueses na lista dos desaparecidos, nem do seu envolvimento em partidos políticos ou em movimentos que se opunham ao regime militar argentino.

"Não tenho conhecimento nem de portugueses, nem de filhos de portugueses que estivessem envolvidos na luta contra o regime", afirmou o dirigente associativo.

De acordo com António Canas, os movimentos contra o regime "dividiam-se em dois grandes grupos: estudantes universitários e trabalhadores ligados à esquerda mais radical".

"A comunidade portuguesa era constituída por pequenos empresários, com filhos ainda novos para entrar na universidade", afirmou o conselheiro, referindo-se ao período 1976-83, acrescentando também que os emigrantes portugueses sempre foram "dos mais respeitados por terem essa imagem de trabalho, tranquilidade e boa integração".

Entre os desaparecidos constam também cidadãos espanhóis, paraguaios, venezuelanos, uruguaios, brasileiros, cubanos, franceses e norte-americanos.

Desde o período da ditadura militar foram criadas várias associações como as "Avós da Praça de Maio" e as "Mães da Praça de Maio", que têm lutado pela descoberta da verdade.

No dia 09 de Novembro vai ser inaugurado em Buenos Aires o Parque da Memória, um monumento onde vão ser colocadas lápides com os nomes das pessoas oficialmente confirmadas como desaparecidas.

Em declarações à Lusa, Maria Scheiner, da Comissão para o Monumento Parque da Memória, disse que Francisco da Fonseca Pereira é, para já, o único português que ali será evocado como "vítima de terrorismo de Estado".

A 24 de Março de 1976, um golpe de Estado dirigido por uma junta militar encabeçada por três comandantes das Forças Armadas, Jorge Rafael Videla, Emílio Eduardo Massera e Orlando Ramón Agosti, derruba o governo de Isabel Perón.

O confronto cada vez mais violento entre facções do peronismo, a acção crescente de organizações e de guerrilhas de inclinação marxista e a crise económica foram razões dadas pelas forças armadas para derrubar um governo cada vez mais frágil.

A Junta Militar designou Videla como presidente e deu início ao denominado "Processo de Reorganização Nacional", prosseguindo com a "Operação Independência", criada em 1975, por Isabel Perón, com o objectivo de combater as guerrilhas.

O regime atacou organizações sociais, políticas e sindicais silenciando qualquer tipo de oposição.

Os campos clandestinos de detenção onde se praticou a tortura e o assassínio foram um dos pilares do terrorismo de Estado que deixou milhares de desaparecidos.

Segundo a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), os desaparecidos são mais de nove mil, embora outras organizações humanitárias estimem esse número em 30,000.

Em Abril de 1982, as tropas argentinas invadiram as ilhas Malvinas/Falklands, sob administração britânica, e dão início a uma guerra entre os dois países que durará até Junho do mesmo ano, quando a Argentina se rende .

A humilhação militar resulta numa derrota política e o regime foi obrigado a convocar eleições, de que sai vencedor o candidato presidencial da União Cívica Radical, Raúl Alfonsín, iniciando-se, depois, processos judiciais contra os responsáveis pela ditadura, alguns dos quais ainda decorrem.


PUB