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Cirurgião acusado de abusar de centenas de crianças vai a julgamento em França
Começa este mês na Bretanha, no noroeste de França, o maior julgamento de abuso de menores da história do país. Em causa estão presumíveis falhas dos sistemas de justiça e saúde franceses que terão permitido décadas de abusos a um antigo cirurgião francês que "fez do seu trabalho o terreno de caça". Joël Le Scouarnec está acusado de violação e agressão sexual de 299 pacientes. Crimes alegadamente perpetrados entre 1989 e 2014.
Após uma investigação policial minuciosa, que durou vários anos, a justiça francesa senta no banco dos réus do Tribunal de Vannes, na Bretanha, um antigo cirurgião por este ter alegadamente abusado de centenas de jovens pacientes, a vasta maioria com menos de 15 anos. Entre as 299 vítimas estão 141 mulheres e 58 homens.
Joël Le Scouarnec, de 73 anos, terá agredido sexualmente os
seus pacientes em contexto hospitalar, alguns quando estavam sob anestesia,
na sala de recobro após cirurgia ou nas suas camas de hospital durante o
internamento, segundo a procuradora do Ministério Público de Lorient, Stéphane Kellenberger, citada pelo diário britânico The Guardian. "Muitas vítimas estavam na sala de operações do
hospital, sob anestesia, a recuperar após a cirurgia, num estado de
sedação ou adormecidas, o que significa que essas vítimas não foram
capazes de perceber o que lhes foi feito", explica Kellenberger.
Foi a consulta de páginas de abuso infantil na dark web por parte do antigo cirurgião que chamou a atenção do FBI, a polícia federal norte-americana, que alertou as autoridades francesas, tendo resultado apenas numa pena suspensa de quatro anos de prisão em França em 2005 sem nunca limitar a sua liberdade de trabalhar com crianças.
"Fez do seu trabalho o terreno de caça"
Só anos mais tarde, em 2017, é que Joël Le Scouarnec foi detido pelas autoridades francesas sob suspeita de violar as suas sobrinhas, assim como um menina de seis anos e um jovem doente. Em prisão desde 2017, Le Scouarnec foi condenado a 15 de anos prisão em 2020.
Na sequência da detenção, a polícia francesa encontrou, durante buscas efetuadas à casa do cirurgião, várias provas dos crimes cometidos durante décadas. Entre elas bonecas sexuais do tamanho de crianças, milhares de imagens de abuso infantil e ainda milhares de páginas de diários em que estariam relatadas agressões contra os seus pacientes minuciosamente enumeradas com as iniciais dos pacientes que permitiu às autoridades identificar potenciais vítimas.
A afirmação "sou um pedófilo" aparece várias vezes nos diários de Le Scouarnec, assim como a narrativa de agressões sexuais que justificou tratarem-se apenas de "fantasias".
No seu primeiro julgamento à porta fechada em 2020, Le Scouarnec revelou ser "um manipulador, sem empatia ou compreensão de outras pessoas, que ele considerava como objetos sexuais", conta ao Guardian Francesca Satta, advogada de dez das vítimas."Era um monstro que fez do seu local de trabalho o seu terreno de caça", denunciou.
A França prepara-se para julgar num clima de revolta o maior caso de abuso de menores da sua história e
enfrentar questões relacionadas com a proteção de menores e o
tratamento penal dos abusadores, poucas semanas após o julgamento
mediático de Dominique Pelicot que agitou o país no final do ano
passado.
Francesca Satta considera que o segundo julgamento do antigo cirurgião "é o julgamento de toda uma sociedade", acrescentando que "na altura, em França, havia um tipo de respeito pelas chamadas pessoas notáveis da sociedade, advogados ou médicos e cirurgiões"."Estas pessoas eram de confiança e não eram vistas a cometer crimes", afirmou Satta.
O julgamento de Joël Le Scouarnec - que enfrenta mais de 100 acusações de violação e mais de 150 acusações de agressão sexual - tem início a 24 de fevereiro e decorrerá até junho.