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Clima e ambiente, as vítimas silenciosas da guerra no Médio Oriente

Clima e ambiente, as vítimas silenciosas da guerra no Médio Oriente

Com pelo menos duas mil vítimas mortais desde o início da guerra (algumas estimativas apontam para quatro mil mortos), o conflito no Golfo Pérsico tem também consequências indiretas. Os bombardeamentos provocaram uma poluição química que contamina o ar, o solo e a água.

Um Olhar Europeu com RTBF /
AFP



Várias organizações não-governamentais estão a tentar elaborar uma lista destes incidentes. 

No seu site na internet, o Observatório dos Conflitos e do Ambiente referiu que "até 10 de março de 2026, enumerámos mais de 300 incidentes, dos quais 232 foram objeto de uma avaliação dos riscos ambientais". 

São sobretudo instalações militares situadas, não só no Irão, mas em toda a região do Golfo Pérsico: Iraque, Israel, Kuwait, Jordânia, Chipre, Barém, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Omã e Azerbaijão.

Com economias dominadas pelos combustíveis fósseis, o Golfo Pérsico está a sofrer as consequências das suas vantagens geológicas. As refinarias tornaram-se alvos por direito próprio, tal como os petroleiros e os navios mercantes.

Para além das instalações militares, os incidentes dizem respeito a toda uma série de tipos de instalações, com diferentes perfis de poluição, desde hospitais a locais de armazenamento de pneus, passando pela indústria petrolífera.

Tendo estas refinarias como alvos militares, é importante lembrar que a queima de petróleo emite dióxido de carbono (e enxofre), o primeiro gás de aquecimento, que permanece na atmosfera durante cerca de cem anos. 

Esta combustão liberta um cocktail de substâncias cancerígenas e de toxinas respiratórias.

Dada a variedade de alvos, as consequências podem ser múltiplas: poluição atmosférica, derrames de petróleo, espécies marinhas ameaçadas, saúde humana em perigo, infiltração tóxica nas águas subterrâneas, etc.

A primeira e mais visível poluição foi a atmosférica. Após os ataques da Operação Fúria Épica de 7 e 8 de março contra instalações logísticas e depósitos de petróleo nos arredores de Teerão, os céus da capital iraniana escureceram e o ar encheu-se de hidrocarbonetos, enxofre e óxidos de azoto, levando o correspondente da CNN a dizer que "chovia petróleo".

A situação especial da capital iraniana, que está parcialmente rodeada pela cordilheira de Elbrus, torna difícil a evacuação das nuvens tóxicas que se acumulam sobre a cidade.

O correspondente da RTBF em Teerão usava ele próprio uma máscara durante a sua aparição no telejornal de 8 de março, referindo-se a "uma nuvem tóxica muito, muito espessa". 

Numa outra entrevista em direto com a France24, Siavosh Ghazi referiu igualmente o risco de estas nuvens tóxicas estagnarem sobre as barragens que abastecem de água a capital iraniana.

As fontes de água são também vítimas deste conflito, nomeadamente as instalações de dessalinização que são essenciais numa região árida com uma escassez gritante de água doce. 

Estas instalações já exercem uma certa pressão sobre o meio ambiente, descarregando água hipersalina. Mas os danos causados a estas instalações de dessalinização podem libertar outros elementos na natureza, incluindo produtos químicos utilizados no processo de dessalinização, como o hipoclorito de sódio, o cloreto férrico e o ácido sulfúrico.

Esta poluição tóxica coexiste com as emissões de CO2 ligadas ao equipamento militar: aviões, navios, etc. 

Em novembro de 2025, o Observatório dos Conflitos e do Ambiente estimava que as emissões militares representavam cerca de 5,5% das emissões mundiais. Uma estatística "provavelmente subestimada", segundo a própria organização.Um golfo marinho ameaçado
Já se registaram vários incidentes ao longo das costas do Golfo Pérsico, pondo em perigo zonas marinhas até então preservadas (apesar da guerra do Kuwait em 1991).

Os Estados Unidos deixaram clara a sua intenção de acabar com a frota iraniana. Até agora, os americanos dizem ter atingido ou afundado mais de 90 navios mas, como salienta o Observatório dos Conflitos e do Ambiente, os riscos ambientais vão muito para além do Golfo Pérsico. 

Por exemplo, um navio iraniano desarmado foi afundado ao largo da costa do Sri Lanka: "A fragata iraniana Dena foi torpedeada ao largo da costa do Sri Lanka e a maré negra resultante, com 20 km de comprimento, ameaça agora zonas ecologicamente importantes ao longo da sua costa. 

As autoridades do Sri Lanka estão atualmente a levar a cabo operações de limpeza e a recolher amostras". 

Estima-se que pelo menos 105 marinheiros tenham morrido no ataque.

O risco de acidentes no mar também aumentou com a interrupção das comunicações entre navios, pelo que o número de colisões poderá aumentar.Duas mil espécies marinhas ameaçadas de extinção
A 12 de março, a Greenpeace na Alemanha manifestou a sua preocupação com as consequências da guerra para o ambiente marinho: "Atualmente, dezenas de petroleiros que transportam milhares de milhões de litros de petróleo estão encalhados no Golfo Pérsico, enquanto são colocadas minas e os mísseis atingem os navios. É uma catástrofe ambiental à espera de acontecer. Um único derrame de petróleo no Golfo poderia causar danos irreparáveis a este frágil habitat marinho, com consequências devastadoras para as pessoas, a vida selvagem e as plantas da região, a juntar ao terrível impacto humano que esta guerra ilegal já causou às comunidades locais."

O problema é tanto mais grave no caso do Golfo Pérsico porque este mar de 251.000 km² está parcialmente fechado. Apenas o Estreito de Ormuz o liga ao Oceano Índico, o que significa que a renovação da água ocorre muito lentamente (entre dois e cinco anos) e que a dispersão dos poluentes será limitada.

Para além disso, o Golfo Pérsico alberga uma fauna especial, incluindo 5.000 a 7.500 dugongos, mamíferos classificados como vulneráveis, e tartarugas-de-pente, criticamente ameaçadas. 

No total, mais de 2.000 espécies marinhas vivem aqui, incluindo baleias jubarte e tubarões-baleia.

A preciosa flora deste golfo também está em perigo. Os recifes de coral, os mangais e as pradarias de ervas marinhas não só fornecem alimento à vida selvagem local, como também são fontes económicas para as populações locais e locais de investigação para os cientistas que estudam as alterações climáticas.

As explosões no mar matam animais e dispersam substâncias químicas em proporções por vezes letais.

Fotografia tirada a 23 de maio de 2019 mostra Mariam, um dugongo, a nadar nas águas em redor da ilha de Libong, na província de Trang, no sul da Tailândia. Sirachai Arunrugstichai / AFP
Estamos a assistir a um ecocídio?

A 16 de março, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Seyed Abbas Araghchi, denunciou no X o bombardeamento israelita de depósitos de petróleo em Teerão, qualificando-o de ecocídio. No entanto, esta denúncia não impediu que o Irão retaliasse da mesma forma, visando nomeadamente os petroleiros nas águas territoriais iraquianas.

Atualmente, não existe uma lei internacional sobre o ecocídio. Benoît Havet, advogado especializado em direito do ambiente e membro da rede Hearthlaw, recorda, no entanto, "a existência da Convenção ENMOD".

Criada em 1976, esta convenção proíbe "a utilização de técnicas de modificação do ambiente para fins militares ou quaisquer outros fins hostis". 

O texto foi concebido e redigido durante a Guerra Fria, nomeadamente, sublinha Benoît Havet, à luz de "certas técnicas utilizadas durante a guerra do Vietname, como a utilização do agente laranja".

Embora pouco conhecida do grande público, esta convenção tem por objetivo introduzir o reconhecimento jurídico da ligação entre o ambiente e a segurança internacional. Visa, nomeadamente, as utilizações militares ou hostis entre Estados. Os atores não estatais e as utilizações civis estão excluídos.

Poderá este texto servir de base a uma ação penal por ecocídio? Segundo o jurista Benoît Havet, "a técnica de bombardeamento deliberado de instalações petrolíferas em grande escala pode constituir um 'processo suscetível de alterar deliberadamente os processos naturais da Terra, como a modificação do clima' e pode ser considerada como capaz de produzir 'efeitos generalizados, duradouros ou graves sobre a vida humana'.Os termos são exclusivos. Será tudo uma questão de interpretação".

A Bélgica adotou o termo ecocídio no seu Código Penal em 2024. Poderá então processar os Estados ou as instituições pelo crime de ecocídio? Não, segundo Benoît Havet, que insiste que, atualmente, o Estado belga tem "jurisdição sobre as radiações, sobre o que se passa no Mar do Norte e sobre as missões belgas na Antárctida".Os precedentes do Vietname e do Kuwait
Há muitos exemplos de danos ambientais ligados a conflitos. A Guerra do Vietname - e a utilização do agente laranja pelos Estados Unidos - é, sem dúvida, o mais conhecido. 

Este pesticida contendo dioxinas foi pulverizado nas florestas vietnamitas pelo exército americano. Décadas mais tarde, as pessoas nascidas muito depois do incidente continuam a sofrer de malformações e de cancro.

O caso do Kuwait está também bem documentado. O exército iraquiano, derrotado perante a ofensiva da coligação internacional, tinha incendiado mais de 700 poços de petróleo. 

Mais de 30 anos depois, o país e a região ainda estão a pagar as consequências.

Na altura, foram necessários meses para apagar os incêndios. Entretanto, o petróleo era derramado nas águas do Golfo e os habitantes continuavam a respirar ar tóxico. 

Além disso, a destruição do terminal petrolífero de Mina al Ahmadi, a 26 de janeiro de 1991, provocou o pior derrame de petróleo de todos os tempos.

Sem recursos e sem intervenção externa, o Kuwait não pôde assumir a responsabilidade pela limpeza das zonas afetadas. Os programas criados 20 anos depois estão a fazer progressos, mas a limpeza total da zona é uma utopia.

A proteção do que ainda pode ser protegido promete ser extremamente difícil, tendo em conta o conflito em curso e a limitada capacidade de reação. 

Uma vez terminado o conflito, a capacidade e a vontade dos países para enfrentar os problemas ambientais serão limitadas: uma questão de custos, de recursos técnicos e de prioridades para as autoridades.

O custo ambiental da guerra é imediato e cumulativo. Os conflitos estão a destruir os ecossistemas de hoje e a enfraquecer a capacidade das sociedades para enfrentarem o calor, a seca, as inundações e as perdas de colheitas de amanhã.

Damien Roulette / 21 março 2026 06:09 GMT

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa
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