Colheitas destruídas pelas cheias agravam fome em Moçambique
Quase quatro milhões de pessoas arriscam entrar em situação de "insegurança alimentar aguda" em Moçambique, devido aos impactos das culturas destruídas pelas cheias e à seca, necessitando de assistência, alertou a rede internacional FEWS NET.
Um relatório daquela agência norte-americana de monitorização de crises alimentares indica que várias áreas do sul e centro de Moçambique vão estar, até maio, em "situação de crise" (IPC Fase 3), depois das cheias de janeiro terem afetado quase 725 mil pessoas, arrasando grande parte das plantações e causado a morte de milhares de cabeças de gado, comprometendo a principal fonte de subsistência das famílias rurais.
O IPC é a referência internacional para declarar situações de fome e vai da fase Mínima 1 à fase de Catástrofe 5.
A situação é agravada pelas "perdas de colheitas e o poder de compra abaixo da média, com alguma melhoria provável entre abril e maio, com o início das colheitas", aponta a FEWS NET. Outras regiões do país enfrentam seca prolongada.
Sublinha, além dos impactos destes impactos, que más colheitas, sementes limitadas, solos degradados e oportunidades de trabalho escassas, que "estão a restringir a recuperação dos meios de subsistência".
"A FEWS NET estima que entre 3,5 e 3,99 milhões de pessoas necessitarão de assistência alimentar humanitária durante o pico da entressafra [período entre colheitas quando os alimentos são escassos e os preços altos], entre fevereiro e março de 2026. As necessidades são impulsionadas pelas cheias de janeiro de 2026 em zonas das regiões sul e central, pelo deslocamento contínuo devido ao conflito em Cabo Delgado e em partes de Nampula, e pelas colheitas consecutivas fracas em zonas semiáridas", lê-se.
No relatório também se admite que de junho a setembro, o cultivo pós-cheias "provavelmente melhorará o acesso aos alimentos, mas a maioria das áreas afetadas estará em Crise (Fase 3 do IPC)".
Até setembro, a FEWS NET disse esperar a classificação como situação de crise (Fase 3 do IPC) "em partes da província de Cabo Delgado e partes da província de Nampula devido a ataques contínuos de grupos armados não estatais, que provocam deslocamentos, restringem a circulação e interrompem as atividades de subsistência", aludindo aos ataques terroristas no norte.
"A insegurança limita o acesso à terra, aos insumos agrícolas e aos mercados, mantendo a produção e a renda abaixo da média. Nas áreas que recebem assistência alimentar regular, espera-se que as situações de Stress (Fase 2 do IPC) persistam, enquanto que nas áreas menos afetadas pelo conflito, a principal colheita, que começa em abril, provavelmente sustentará as situações de Stress (Fase 2 do IPC) e Mínima (Fase 1 do IPC)", diz.
O número de mortos na atual época das chuvas em Moçambique ascende até ao momento a 263, com quase 870 mil pessoas afetadas, desde outubro, segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).
Foram afetadas 869.035 pessoas na presente época das chuvas, correspondente a 200.843 famílias, havendo também 10 desaparecidos e 331 feridos, segundo o mesmo balanço.
Só as cheias de janeiro provocaram, pelo menos, 43 mortos, 147 feridos e nove desaparecidos, afetando globalmente 724.131 pessoas. Já a passagem do ciclone Gezani em Inhambane, em 13 e 14 de fevereiro, causou mais quatro mortos e afetou 9.040 pessoas, segundo os dados atualizados do INGD sobre a época das chuvas.
Um total de 15.330 casas ficaram parcialmente destruídas, 6.181 totalmente destruídas e 183.824 inundadas, na presente época chuvosa. Ao todo, 302 unidades de saúde, 83 locais de culto e 720 escolas foram afetadas em cinco meses.
Os dados do INGD indicam ainda que 555.040 hectares de áreas agrícolas foram afetados neste período, 288.016 hectares dos quais dados como perdidos, atingindo 365.784 agricultores. Também 530.998 animais morreram, entre bovinos, caprinos e aves, e foram afetados 7.845 quilómetros de estrada, 36 pontes e 123 aquedutos.