Comboio de navios tenta "furar" bloqueio israelita a Gaza

Um comboio de navios provenientes de vários países europeus está a caminho da Faixa de Gaza. A flotilha de nove embarcações deve chegar Sábado ao território controlado pelo Hamas, com o objectivo de levar mantimentos e auxílio humanitário à população isolada pelo bloqueio israelita. O Governo judaico promete impedir os barcos de chegarem a Gaza e diz já ter preparado um centro de detenção para receber os activistas.

António Carneiro, RTP /

A auto-denominada "Flotilha da Liberdade" integra nove navios de carga e de passageiros que zarparam de vários portos europeus. Nas embarcações seguem mais de dez mil toneladas de materiais de construção, equipamento médico e escolar e cerca de 750 activistas de várias nacionalidades.

A bordo seguem também parlamentares de vários países europeus, antigos diplomatas dos Estados Unidos e laureados com o prémio Nobel da Paz.

O objectivo declarado é o de chegar a Gaza que desde 2007 está sob um bloqueio israelita.

Israel promete que vai impedir os navios de chegarem ao destino, se necessário pela força. O Governo de Jerusalém deu instruções às Forças de Defesa de Israel para que desviem o comboio para o porto israelita de Ashdod, onde as provisões serão descarregadas e encaminhadas para Gaza pelo exercito.

Detidos, interrogados e deportados

Paralelamente os militares dizem já ter preparado um campo de detenção onde os activistas serão recebidos à chegada. Segundo o exército, os cidadãos israelitas que estiverem a bordo serão detidos, os palestinianos submetidos a interrogatório e os cidadãos estrangeiros deportados.

Para esse efeito, parte do porto de Ashdod foi isolado e foram instaladas tendas  onde as pessoas serão revistadas e submetidas a uma triagem.

O comboio naval foi organizado pelo movimento "Liberdade para Gaza", uma organização pró-palestinana de direitos humanos, e pelo movimento IHH, uma fundação de auxílio humanitário turca, afiliada com a Irmandade Islâmica.

Segundo os organizadores da iniciativa, Israel não tem o direito de os impedir de atracar em Gaza a partir de águas internacionais. Israel alega que pode fazê-lo, uma vez que o bloqueio a Gaza foi decretado por o país se encontrar actualmente em estado de conflito armado com o regime do Hamas que desde Junho de 2007 controla Gaza.

Os israelitas alegam que de acordo com a lei marítima internacional, bloqueios navais constituem uma medida legítima e que nenhum barco está por isso autorizado a entrar na área.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel diz que avisou os embaixadores de Chipre, Grécia, Irlanda, Suécia e Turquia - de onde partiram os navios - que tinha emitido uma ordem a proibir a entrada dos navios em Gaza.

"A flotilha está prestes a quebrar a lei internacional" disse Yossi Gal, director-geral do ministério.

Organizadores querem "furar" o bloqueio

Uma das fundadoras do movimento "Liberdade para Gaza", Greta Berlin, admite que a intenção da flotilha é precisamente a de furar o bloqueio.

"O objectivo dos barcos é o de quebrar o cerco israelita a Gaza, o bloqueio a Gaza. Os materiais que temos a bordo são todos os materiais que Israel negou ao povo de Gaza, como cimento, material de construção, de educação, etc." disse Berlin citada pela CNN.

A deputada israelita Hanin Zoabi, que também segue a bordo da flotilha, vai mais longe:" Não aceitamos o cerco a Gaza" disse "Israel não quer só um cerco, quer um cerco silencioso. Israel não quer ocupação, quer uma ocupação silenciosa, quer que as suas politicas não sejam alvo de críticas no mundo".

"É por isso que quer deter a flotilha e também evitar a cobertura do acontecimento" concluiu a deputada do Knesset.

"Reles estratagema político"

O Governo israelita reagiu pela boca de um porta-voz. Mark Regev diz que a flotilha não passa de "um reles estratagema político". Segundo ele, " se os activistas estivessem realmente interessados em ajudar os palestinianos, teriam aceite as ofertas do Egipto e de Israel de transferir o auxílio humanitário para o povo de Gaza, juntamente com outras 15.000 toneladas de auxílio que são entregues todas as semanas".

Israel garante também que "não há fome nem falta de auxílio humanitário em Gaza".

Com a chegada dos navios prevista para breve, o secretário-geral das Nações Unidas apela á contenção. "Apelamos a que todos os envolvidos ajam com um sentido de cuidado e de responsabilidade e trabalhem para uma solução satisfatória", disse quinta-feira um porta voz de Ban Ki Moon .

Desastre de relações públicas

Alguns responsáveis israelitas temem que a situação se venha a revelar desastrosa em termos de relações públicas.

"Não podemos vencer aqui em termos de relações públicas" disse Yigal Palmor , um porta-voz do ministério israelita dos Negócios Estrangeiros .

"Se os deixarmos atirar-nos com o ovo pareceremos estúpidos com o ovo na cara. Se os tentarmos impedir pareceremos brutos" precisou este responsável, citado pela Al Jazeera.

Por seu lado o Hamas acusa Israel de querer cometer "um acto de pirataria sionista" quando fala em obrigar os navios a desviarem-se para o porto de Ashdod.

"A ocupação está preocupada com estes navios, porque eles conferem legitimidade ao empenhamento com o Governo palestiniano e confirmam que as tentativas para isolar o Hamas falharam", disse um dos responsáveis do movimento palestiniano armado, Ismail Radwan.

 

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