Comissão Europeia alarmada com eventual "Brexit"

Uma eventual saída do Reino Unido da União Europeia, vulgo "Brexit", teria "consequências imprevisíveis", diz o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker.

RTP /
Yves Herman, Reuters

O referendo britânico sobre o "Brexit" deverá realizar já em 23 de Junho, e a pré-campanha assume foros de batalha campal, com espectacular alinhamento de forças de um lado e de outro.

Depois de ter posto prolongadamente o acento tónico sobre os défices a corrigir na União Europeia (UE), e sobre os custos desproporcionados que ela alegadamente comporta para o Reino Unido, o primeiro-ministro David Cameron vê-se agora na contingência de travar às quatro rodas e de chamar o eleitorado a votar pela permanência na UE. Nem a City lhe perdoaria que continuasse a jogar aos aprendizes de feiticeiro, com resultados potencialmente devastadores para o comércio externo britânico.

O alinhamento de forças não é menos espectacular no plano internacional. Desde logo nos Estados Unidos, em que o presidente Barack Obama foi a Londres sublinhar o interesse norte-americano numa estabilidade da UE, e numa permanência britânica entre os seus países membros, mesmo que esse estatuto não inclua a sua participação na zona euro.

Para lá da Mancha, a moeda continua a ser a libra, mas isso não deve impedir que o Reino Unido se mantenha dentro da UE, nem deve permitir que um eventual "Brexit" venha criar turbulências - potencial golpe de misericórdia contra as já de si periclitantes negociações do TTIP (Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), que Obama tem tanto empenho em assinar, nem que seja esse o último gesto do seu mandato.

Entretanto, várias outras vozes internacionais se tinham feito ouvir contra o "Brexit", alarmadas com o que começara por parecer uma manobra de pressão por parte de Cameron que subitamente ganhava vida própria contra o seu própria criador. Entre essas vozes contaram-se as do FMI, da OCDE e do G 20, compondo entre todas a imagem de um concerto internacional sem cacofonias.

Mas a fulgurante ascensão de Donald Trump no firmamento da política norte-americana roubou a Obama parte do show, tanto sobre o TTIP como sobre o "Brexit". Com efeito, o muito provável candidato republicano à Casa Branca tem-se manifestado contra o TTIP e, em boa lógica, não deixou de afirmar que o Reino Unido "estaria melhor" sem a UE.

Neste palco internacional, que, por meio de um consenso sem fissuras, era suposto emendar as iniciais ambiguidades de Cameron, introduziu-se portanto uma estridente nota de dissonância, potencialmente favorável ao "Brexit". Numa entrevista concedida a Funke e citada por The Guardian na madrugada de hoje, Juncker volta à carga com as diligências correctoras.

Segundo o presidente da Comissão Europeia, "todos os europeus querem que as Ilhas Britânicas permaneçam na família". Pelo contrário, se o eleitorado britânico optasse pela saída, isso "certamente teria consequências imprevisíveis para a cooperação europeia, sobre as quais não pretendo de modo algum especular, porque estou convencido que os britânicos vão tomar a decisão razoável".

Juncker tratou também de dar ao eleitorado britânico alguns motivos mais palpáveis do que o mero apelo a uma putativa unidade familiar, lembrando que a UE tinha assinado com o Reino Unido, em Fevereiro último, um "acordo justo" sobre reformas que se consideravam favoráveis à sua permanência na Europa.
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