Comissão Interamericana de Direitos Humanos acusa Peru de "uso indiscriminado de força"
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou hoje a violência policial registada no Peru durante os protestos do final de 2022, e garantiu que encontrou casos de "execuções extrajudiciais".
"Sendo perpetradas por agentes do Estado, as mortes podem constituir execuções extrajudiciais", disse a organização sediada em Washington num relatório que hoje publicou sobre a situação dos direitos humanos no Peru.
A CIDH acrescentou ainda que a violência no município de Ayacucho deve ser investigada "com enfoque étnico-racial", e considerou que a situação pode ser considerada como "uma chacina".
Em dezembro de 2022, um protesto em Ayacucho, no qual vários manifestantes tentaram tomar o aeroporto, levou os militares a disparar e terminou com oito mortos e 26 feridos.
A CIDH acrescentou que recolheu informação sobre a atuação das forças policiais no território peruano e que os dados revelam o "uso desproporcional, indiscriminado e letal de força" confirmado pelo elevado número de mortos e feridos.
Neste sentido, a organização pediu ao Governo de Dina Boluarte que investigue os casos de uso excessivo de força.
Para além de detalhar um conjunto de ações que as autoridades devem tomar para superar a crise no país, a CIDH apelou à melhoria dos protocolos de segurança para evitar casos futuros e defendeu o combate à impunidade através do reforço das capacidades do Ministério Público.
Também a Human Rights Watch (HRW) publicou, no dia 26 de abril, um relatório sobre a crise democrática e o abuso das forças de segurança no país, acusando o governo de "aparente passividade" e "negligência ou inclusive cumplicidade".
"Durante semanas, enquanto as forças de segurança matavam manifestantes e transeuntes, o Governo de Boluarte parecia estar a olhar para o outro lado", disse a HRW.
Num relatório divulgado em finais de fevereiro, a Amnistia Internacional (AI) tinha já denunciado a "violenta repressão do Estado" peruano contra os protestos antigovernamentais no país e o "uso indiscriminado de armas letais" contra manifestantes, para além de detenções arbitrárias e outras violações dos direitos humanos, incluindo alegadas execuções extrajudiciais.
Os protestos sociais no Peru eclodiram em dezembro após o golpe fracassado de Pedro Castillo, que atualmente cumpre 18 meses de prisão preventiva após ser indiciado por tentar promover um autogolpe de Estado em 07 de dezembro, e contra o Governo de Dina Boluarte.
A crise política que tem abalado o Peru é reflexo de um enorme fosso entre a capital e as províncias pobres que apoiam Castillo, que nunca terá sido aceite no Palácio Presidencial ela elite oligárquica da capital pela sua origem ameríndia.
Os protestos, que se espalharam por todo o território nacional nos últimos meses, já resultaram em cerca de sessenta mortos e milhares de feridos e detidos.