Como os torturadores de Guantánamo forjaram uma carta em vão

Ao prisioneiro mauritano foi apresentada uma carta de sua mãe para convencê-lo a colaborar com os carcereiros. Mas o prisioneiro não acreditou: a mãe era analfabeta.

RTP /
Manifestação em Berlim, pelo encerramento da prisão de Guantánamo Christian Ruettger, Reuters

O irmão do prisioneiro Mohamedou Ould Slahi, Yadih, citado em The Guardian disse que as autoridades prisionais utilizaram a separação, longa de vários anos, entre mãe e filho para tentarem pressionar o preso com a apresentação da suposta carta.

Mohamedou deve ter começado por pensar que a mãe ditara uma carta, porque um dos comentários incluídos no seu "Diário de Guantánamo" diz: "Senti o cheiro de uma carta que tinha tocado a mão da minha mãe". Mas a versão de que fora a própria mãe a escrever a missiva só podia, definitivamente, despertar a desconfiança do preso.

O irmão, Yahdih Ould Slahi, esteve presente na terça feira no lançamento público do "Diário de Guantánamo", publicado conjuntamente por The Guardian, pelo editor Canongate e pela associação de escritores PEN. Aí relatou o epílogo da história: a mãe de ambos morreu na Mauritânia em 2013, sem que o irmão tivesse a oportunidade de voltar a vê-la.

Yahdih explicou também que "eles [mãe e irmão preso] tinham sido muito próximos. A família discutiu se havia de dizer a Mohamedou. Mas não queríamos que ele soubesse pelos guardas da prisão. Começámos por dizer a Mohamedou que a mãe estava muito doente". Finalmente, decidiram seguir o conselho do Comité Internacional da Cruz Vermelha e escreveram-lhe uma carta a informar sobre a morte da mãe.
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