"Compensações seriam caixa de Pandora" - Ramos-Horta

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13 Jul (Lusa) - As compensações individuais às vítimas da violência de 1999 em Timor-Leste "abiririam uma caixa de Pandora", afirmou José Ramos-Horta em entrevista à Agência Lusa.

O Presidente da República timorense defende o relatório da Comissão de Verdade e Amizade (CVA), que reconhece "responsabilidade institucional" dos dois países pelos crimes de 1999 mas não recomenda acusações nem compensações individuais.

"Em relação às vítimas, o lado timorense disse desde o início que não se ia ver elementos individuais porque abriríamos uma caixa de Pandora", declarou José Ramos-Horta.

"Se vamos dar compensações por 1999 também temos que dar compensação às vítimas de 24 anos de ocupação", acrescentou o chefe de Estado timorense.

"É uma questão prática, não é uma questão de princípio", sublinhou o líder timorense, que amanhã viaja para Bali, Indonésia, onde a CVA apresenta aos líderes dos dois países o seu relatório final.

Numa longa entrevista à Lusa sobre perdão e justiça, em Díli, José Ramos-Horta elogiou "o pragmatismo da Indonésia".

"Honraram o resultado da consulta (de 1999) e logo a seguir estenderam uma mão de amizade para Timor-Leste. Não viraram as costas, não atiçaram os ex-milícias contra Timor-Leste", notou José Ramos-Horta.

"Teria sido tão fácil desesatabilizar Timor através da fronteira", explicou o chefe de Estado.

Sobre o resultado de dois anos e meio da CVA, José Ramos-Horta salientou que "pela primeira vez os dois países pediram desculpa às vítimas. A palavra usada é remorso. É forte", afirmou o Presidente timorense.

"Não há compensação individual. Haverá intensificação de esforços para concluir as negociações sobre a fronteira e para criar uma zona de paz na fronteira para que possa fazer visitas e comércio", explicou José Ramos-Horta.

"Esse nosso povo é muito perdoador. O mais importante hoje para o povo é a sua própria segurança, paz e estabilidade, honrar os mortos seus e retomar as suas vidas", declarou o Presidente timorense sobre a forma como os timorenses receberão a CVA.

"Seria inteligente e seria até justo exigir o tribunal internacional para os crimes de 1999?", questionou José Ramos-Horta na entrevista.

"Isso só iria desestabilizar a Indonésia. Iria atiçar o seu orgulho e nacionalismo. Seria aproveitado pelos nacionalistas e pelos muçulmanos mais radicais", disse o Presidente.

"Em vez de caminharmos ao encontro da Indonésia para começar todo um novo capítulo com eles, vamos continuar a perseguir?"

"Eu não o faria, por razões de Estado mas também por razões pessoais", sustemtou José Ramos-Horta.

"Eu tenho sensibilidade suficiente para sentir a ferida da Indonésia, quando foi humilhada em 1999 e apesar disso tudo fez para acolher o novo Estado independente", insistiu o Presidente da República.

José Ramos-Horta enumerou várias situações em que diferentes países decidiram não pedir ou não dar compensações individuais.

Entre os exemplos estão Portugal e as ex-colónias de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, o Vietname em relação aos EUA, a Argélia em relação à França, ou Timor-Leste em relação ao Japão, que ocupou o território na Segunda Guerra Mundial.

"Decidimos não seguir por essa via", concluiu o chefe de Estado.

PRM


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