Compras da China de árvore de pau-rosa na Gâmbia financiam rebeldes de Casamansa

Banjul, 11 mar 2020 (Lusa) - A exportação ilegal da árvore de pau-rosa da Gâmbia para a China já rendeu 300 milhões de dólares e é a principal fonte de financiamento dos separatistas senegaleses de Casamansa, segundo a televisão britânica BBC.

Lusa /

De acordo com uma reportagem disponível no `site` da estação britânica sobre o abate ilegal destas árvores protegidas pelas convenções internacionais ambientais, a exportação ilegal da árvore de pau-rosa é o principal sustento dos rebeldes de Casamansa, que pretendem a independência face ao Senegal, e é praticada com a complacência das autoridades.

A reportagem, assinada pelo jornalista Umaru Fofana, recorre a entrevistas com os madeireiros ilegais e com ativistas de defesa ambiental, utiliza drones para mostrar os depósitos de árvores cortadas e os carregamentos de madeira ilegais, e revela que o abate ilegal destas árvores na fronteira entre a Gâmbia e o Senegal é uma prática comum e rentável, mas já deixou uma extensa mancha de deserto onde antes havia florestas.

"A Gâmbia está entre os cinco maiores exportadores mundiais deste tipo de madeira, o que é estranho para quem já esgotou as suas reservas há vários anos", narra o jornalista, vincando que este negócio, apesar de proibido, representa metade das exportações do país e 10% do PIB.

Na reportagem, conta-se que o antigo Presidente da Gâmbia Yahya Jammeh terá amealhado milhões de dólares através das licenças para a exportação desta espécie protegida, e que o novo Governo, liderado pelo Presidente Adama Barrow, permitiu o envio de 300 mil toneladas desta madeira para a China, o maior cliente.

"Todas as vezes é a mesma coisa, dizem que têm os depósitos de madeira cheios, que precisam de escoar, e o Governo levanta a proibição de exportação; esvaziam os depósitos, exportando a madeira, e depois voltam a encher e vão novamente pedir uma autorização do Governo, é a mesma história repetida à exaustão", comenta um ativista citado na reportagem.

Nas entrevistas feitas com uma câmara oculta, os madeireiros ilegais explicam que os rebeldes de Casamansa, do outro lado da fronteira com o Senegal, incentivam o abate das árvores porque não têm outra fonte de receita, mas para o porta-voz deste movimento, "quem verdadeiramente apoia a causa não tem o direito de cortar uma árvore porque uma árvore é sagrada".

Os rebeldes de Casamansa estão em guerra civil com as autoridades senegalesas desde 1990, reclamando a independência do território, no sul do país, entre a Gâmbia e a Guiné-Bissau.

Em 2019, segundo os dados apresentados na reportagem da estação pública britânica, a Gâmbia exportou 100 mil toneladas de madeira, quatro vezes mais do que no ano anterior, o que só é possível porque a madeira da árvore do pau-rosa, já inexistente no país, é cortada nos países vizinhos, principalmente no Senegal, e vendida como sendo da Gâmbia.

A Gâmbia é um país da África Ocidental que faz fronteira com o Senegal, a norte e a sul, e com a Guiné-Bissau, a sul.

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