Confrontos com taliban em pano de fundo na passagem do poder

Confrontos entre a polícia de Kandahar e dois taliban localizados numa casa da capital provincial resultaram na morte dos combatentes anti-governamentais e em quatro baixas entre os agentes afegãos. A “batalha” deu-se no dia em que na província vizinha de Helmand se procedeu à transição do poder das tropas da coligação para as mãos das forças nacionais afegãs, mostrando que é um balanço escasso aquele que se vive - em particular - a Sul.

RTP /
O ministro da Defesa, Abdul Rahim Wardak (dir.), passa inspecção à guarda de honra em Lashkar Gah Sher Khan, EPA

A polícia lançou a operação contra uma casa suspeita depois de ter recebido informação de que a habitação era ocupada por membros dos taliban, entre os quais um mullah com posição de chefia na organização radical islâmica.

De acordo com Siddiq Siddiqi, porta-voz do ministro do Interior, o comandante e um combatente taliban foram mortos, tendo ainda sido registadas três vítimas mortais do lado da polícia: “A nossa polícia recebeu informações relativas à presença de alguns terroristas numa casa no Distrito 1. Os agentes cercaram a habitação e ordenaram-lhes que se rendessem, mas eles recusaram e começaram a disparar”.

O representante do Governo afegão fez ainda o balanço do confronto: “Ambos os terroristas, incluindo um comandante taliban surdo, muito conhecido, que dava pelo nome de Mullah Kar, foram mortos”, assim como três membros das forças policiais.

Estes números são no entanto contrariados por fontes do Hospital Mirwais, de Kandahar, onde um dos médicos assinala quatro polícias mortos e três outros feridos.

Passagem de poder em Lashkar Gah
Em Lashkar Gah, capital da província vizinha de Helmand, decorreu sem sobressaltos a passagem de poder das tropas da coligação para as forças afegãs.

Numa reportagem do local, o jornalista da Al Jazeera Bernard Smith assinala que “é um momento simbólico em que se dá a tomada da responsabilidade pelas forças afegãs nessa parte do Afeganistão. Continuarão a estar lá forças estrangeiras, claro, mas passará a ser uma presença de fundo, servindo de mentores das forças afegãs e apenas intervirão quando e se forem solicitados”.

A coligação internacional começou a retirar do Afeganistão, sendo o grande objetivo permitir que em 2014 as forças de segurança afegãs tenham o controlo de todo o território. Neste momento há um contingente de 150 mil militares estrangeiros no país, sendo dois terços forças norte-americanas.

Trata-se no entanto de uma pacificação ténue, principalmente aquela a que se assiste no sul do país. Só neste mês a segurança foi seriamente abalada com a morte de Jan Mohammed Khan, conselheiro do Presidente Karzai, e do próprio irmão do Presidente, Ahmad Wali Karzai, mortes que já fazem temer o ressurgimento de tensões tribais na região. Jan Mohammed Khan, líder tribal e antigo governador da província do Uruzgan, agora conselheiro de Karzai, foi morto no passado domingo; uma semana antes Ahmad Wali Karzai, que ostentava o título de chefe do Concelho Provincial de Kandahar, mas que na realidade era a figura mais proeminente no Sul do país e, na prática, o braço do Presidente na região, era assassinado pelo seu mais fiel guarda-costas

Tanto Khan como Wali constituíam pilares sobre os quais o Presidente Karzai assentava a sua influência desde a capital Kabul até às províncias a Sul, onde os taliban mantêm os “quartéis-generais”, nomeadamente Kandahar, a casa dos radicais islâmicos.

Wali, ele próprio em Kandahar, e Khan, através do sobrinho - Mattiullah Khan é um chefe de milícias e patrão de uma companhia de segurança –, haviam conseguido pacificar os conflitos tribais entre os vários grupos, colocando-o sob uma liderança única, as suas.

A eliminação destas figuras ameaça baralhar profundamente o jogo do poder e da luta contra os taliban.
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