Conservadores derrotados em legislativas parciais. Boris Johnson não desarma

por Carlos Santos Neves - RTP
"Penso que, enquanto Governo, tenho de ouvir o que as pessoas dizem" Neil Hall - EPA

Os conservadores britânicos encaixaram uma derrota em duas eleições legislativas parciais realizadas na quinta-feira. Foi mais um teste à popularidade de Boris Johnson na sequência do escândalo partygate e em contexto de crise económica no Reino Unido. Mas o primeiro-ministro insiste na ideia de "continuar". Ao mesmo tempo, promete "ouvir" o eleitorado.

Os tories deixaram escapar o círculo eleitoral de Tiverton e Honiton para os liberais democratas. E Wakefield foi reconquistado pela principal força da oposição, o Partido Trabalhista - o círculo fora arrebatado pelos conservadores em dezembro de 2019, num resultado que impulsionou a maioria absoluta.

Rosário Salgueiro e Tiago Passos, correspondentes da RTP em Londres

A eleição em Wakefield foi precipitada pela demissão do deputado Imran Khan, condenado a 18 meses de prisão por assédio sexual de um adolescente
.

Já em Tiverton e Honiton - circunscrição do sudoeste de Inglaterra de cunho conservador desde a sua criação, em 1997 - o eleitorado votou para designar o sucessor de Neil Parish: este deputado de 65 anos demitiu-se depos de ter admitido ver pornografia no telemóvel quando se encontrava no Parlamento de Westminster.Parish, antigo agricultor, alegou ter acedido a um site para adultos, por erro, quando pesquisava tratores; voltou em seguida à mesma página num "momento de loucura", nas suas palavras.


Em Wakefield, os trabalhistas reaveram um assento parlamentar cedido aos tories em 2019, averbando 47,9 por cento dos votos contra 30 por cento do Partido Conservador.

Em Tiverton and Honiton, os Liberais Democratas conquistaram 52,9 por cento dos sufrágios, num acréscimo de 38 por cento relativamente aos resultados de há três anos. Os conservadores passaram de um resultado de 60 por cento em 2019 para 38,5 por cento, agora.
"Resultados difíceis"
Foi a partir do Ruanda, onde participa num encontro da Commonwealth, que o primeiro-ministro britânico reagiu a este escrutínio, para reconhecer que se trata de "resultados difíceis".

"Penso que, enquanto Governo, tenho de ouvir o que as pessoas dizem, em particular as dificuldades que as pessoas enfrentam em relação ao custo de vida, o que penso que para a maioria das pessoas é a questão número um"
, propugnou Boris Johnson.
Na quinta-feira o líder conservador, crescentemente contestado no seio do próprio partido, classificava já como "absurdo" o cenário de demissão em caso de derrota nestas legislativas parciais, propondo-se permanecer à frente do Executivo "até ultrapassar este mau bocado".Boris Johnson passou no crivo de uma moção de censura interna no início de junho, obtendo 59 por cento dos votos dos deputados do Partido Conservador.

Em contraste, o presidente do Partido Conservador, Oliver Dowden, apresentou a demissão, reconhecendo que as derrotas em Tiverton e Honiton e em Wakefield constituem "os últimos de uma série de resultados muito fracos para o partido".

Em carta a Boris Johnson, Dowden escreveu mesmo que "os militantes estão irritados e desapontados com os acontecimentos recentes": "E eu partilho os seus sentimentos. Não podemos continuar o trabalho como habitualmente. Alguém tem de assumir a responsabilidade". 

O líder dos trabalhistas considera que o resultado no círculo eleitoral do norte de Inglaterra "mostrou que o país perdeu a confiança nos conservadores". Keir Starmer sustenta ainda que este é um "veredicto claro sobre um Partido Conservador que ficou sem energia e ideias".

Por seu turno, o número um dos Lib Dems, Ed Davey, insistiu na exigência da demissão de Boris Johnson. "A população de Tiverton and Honiton falou em nome do país. As pessoas já estão fartas das mentiras e do desrespeito pela lei de Boris Johnson e está na altura de os deputados conservadores finalmente fazerem o que está certo e o despedirem", vincou.

c/ agências
pub