Construção em massa coloca 300 mil pessoas em risco nos Himalaias

Construção em massa coloca 300 mil pessoas em risco nos Himalaias

Um estudo concluiu que pelo menos 300 mil pessoas na região dos Himalaias estão atualmente a viver em áreas em risco de inundação.

Mariana Ribeiro Soares - RTP / Adicionar como fonte informativa
Destruição provocada pelas cheias de agosto no Nepal | Athit Perawongmetha - Reuters

De acordo com o estudo publicado na revista Scientific Reports, a quantidade de terrenos construídos em zonas de alto risco no norte do Nepal, em partes do sudeste do Tibete e numa área de Uttarakhand, na Índia, cresceu cerca de 45% entre 2016 e 2023.

Em áreas particularmente ameaçadas por inundações de lagos glaciares, a construção cresceu ainda mais rapidamente, aumentando quase 78% no mesmo período.

Segundo os cálculos dos investigadores, 293.800 pessoas estão a viver atualmente em aéreas em risco de inundação. Os especialistas ressalvam que o número real de pessoas ameaçadas pode ser muito superior, uma vez que analisaram apenas um território específico e excluíram áreas vizinhas que enfrentam riscos semelhantes.

O estudo foi realizado antes das devastadoras inundações de agosto que provocaram mais de 1.400 mortos e milhares de desaparecidos no Nepal. A enxurrada foi provocada pelo colapso de um glaciar.

Após este desastre, vários especialistas alertaram para o risco de ocorrência de novas inundações semelhantes na região, à medida que a crise climática se agrava.

As inundações nos Himalaias são geralmente causadas por monções sazonais, chuvas extremas ou inundações raras, mas devastadoras, provenientes de lagos glaciares. Os riscos nesta área são impulsionados principalmente pelo aquecimento na região dos Himalaias, que, segundo os cientistas, está a acontecer duas vezes mais rápido do que a média global. Isso acelerou o degelo dos glaciares, que normalmente permanecem congelados o ano todo.
“Vivemos em constante medo”
Pokhara, no Nepal, cresceu significativamente nos últimos 30 anos para atender ao aumento do turismo.

O autarca da região, Dhana Raj Acharya, afirma que lidar com o risco representado pelo rio Seti Gandaki, que nasce na cordilheira de Annapurna e atravessa a cidade, é um enorme desafio, declarando que muitos prédios antigos estão a apenas cinco metros das margens do rio, apesar de as novas regras exigirem uma distância maior.

“Para onde os transferimos e como fazemos isso é o verdadeiro desafio”, diz Acharya, citado pela BBC.

O presidente da Associação Hoteleira de Pokhara admite que os negócios turísticos se expandiram "sem qualquer planeamento adequado" na região e foram promovidos "de forma desordenada".

A norte fica Annapurna, uma região montanhosa conhecida pelos seus trilhos, que também registou um aumento de construções.

Krishna Gauchan, dono de um hotel perto do rio Modi, em Annapurna, expressa a sua preocupação com o risco de inundações. "Este rio pode transbordar se os glaciares desabarem e vivemos em constante medo”, disse.
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