Mundo
Contestação a Mubarak deixa o Cairo a ferro e fogo
Centenas de milhares de manifestantes inundaram esta sexta-feira as ruas do Cairo e de outras grandes metrópoles do Egito, numa onda de protestos que ameaça reeditar a história recente da Tunísia e pôr fim a 30 anos de domínio autocrático de Hosni Mubarak. Na capital, as chamas consumiram a sede da formação política do regime, que tenta agora suster a sublevação com uma ordem de recolher obrigatório para todo o país.
Nas últimas horas, o Cairo mergulhou no caos. Há notícias de explosões e tiroteios em toda a cidade. Ao início da noite, grandes colunas de fumo eram visíveis em vários edifícios, entre os quais o da formação política que apoia o Governo, o Partido Nacional Democrata (PND). Algumas televisões, como a Al Jazeera, têm estado a transmitir imagens em direto da capital egípcia. Há ainda relatos de manifestações violentas noutras cidades do país, nomeadamente Alexandria e Suez.
Diversos repórteres no Cairo relataram também ataques generalizados a esquadras de polícia. Várias unidades do Exército, apoiadas por veículos blindados, circulavam esta sexta-feira pela capital. Ainda não é claro, porém, se o dispositivo militar permanece fiel ao Governo. Imagens emitidas pelas televisões mostram os tanques a serem recebidos com aplausos da população. Segundo noticiou a Associated Press, o edifício do Ministério dos Negócios Estrangeiros terá sido alvo de uma tentativa de invasão por parte de grupos de manifestantes. O cenário repetiu-se nas instalações da televisão estatal, onde os manifestantes terão feito estragos.
Perante a marcha da contestação, que perdura há já quatro dias, o Governo destacou tropas para as grandes cidades do país. Contudo, no Cairo, em Alexandria e Suez, milhares de manifestantes permanecem nas ruas, ignorando o recolher obrigatório imposto pelas autoridades. Pelo menos cinco pessoas morreram nos confrontos desta sexta-feira. O número de feridos ascende a 870, de acordo fontes médicas citadas pela Reuters.
Nas grandes cidades egípcias, os manifestantes incendiaram pneus e veículos da polícia, que respondeu com granadas de gás lacrimogéneo, canhões de água, bastões, balas de borracha e, em alguns casos, fogo real. Ahmad Salah, um manifestante egípcio de 26 anos ouvido pela Associated Press, emprestou a voz à revolta diante da repressão das autoridades: "Não posso acreditar que a nossa própria polícia e o nosso próprio Governo continuem a bater-nos desta maneira. Estou aqui há horas, fui gaseado e continuo a avançar. Este é um Governo cobarde e que tem de cair. Vamos assegurar-nos disso".
ElBaradei em prisão domiciliária
Promovidos pelo autodenominado "Movimento 6 de Abril" - uma organização de jovens inspirada na "revolução do jasmim", que levou à capitulação de Zine al-Abidine Ben Ali na Tunísia - os protestos da "sexta-feira da cólera" contaram com a participação de Mohamed ElBaradei e dos Irmãos Muçulmanos, uma das principais forças da Oposição. Nas ruas, a polícia recebeu o antigo número um da Agência Internacional de Energia Atómica e Prémio Nobel da Paz com canhões de água. ElBaradei esteve cercado numa mesquita. Quando regressou a casa, a polícia comunicou-lhe que ficaria em prisão domiciliária.
Em Washington, o Presidente norte-americano, Barack Obama, esteve já reunido com a sua equipa de Segurança Nacional para analisar a situação do regime egípcio, entre os mais importantes aliados regionais dos Estados Unidos. Referindo-se ao país mais populoso do mundo árabe (80 milhões de habitantes) como um "forte parceiro", a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, apelou à cúpula política do regime para que ponha em prática um conjunto de reformas que permita aplacar a ira popular: "Queremos continuar a ser parceiros do Governo e do povo egípcio. O que vier eventualmente a acontecer no Egito cabe aos egípcios".
"Enquanto parceiros do Egito, apelamos a que haja contenção por parte das forças de segurança, a que não haja pressa em impor medidas muito restritivas que sejam violentas e a que haja um diálogo entre o Governo e o povo do Egito", insistiu Clinton.
Num sinal de que a Administração Obama ainda não estará preparada para deixar cair Hosni Mubarak, o Pentágono decidiu levar por diante as reuniões com altas patentes militares do Egito que decorrem desde quarta-feira em Washington. Entre os interlocutores do Departamento de Defesa dos Estados Unidos está o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Sami Anan, que já deu indicações de que pretende regressar a casa nas próximas horas.
Egito desligado da Internet
Durante a madrugada de sexta-feira, o Governo egípcio deu ordem aos operadores do país para desligaram todo o acesso à Internet, como forma de dificultar a organização dos protestos no país. O próprio site do Governo egípcio ficou indisponível.
As redes de telemóvel também foram desligadas pelas mesmas razões, evitando-se assim que os manifestantes possam trocar SMS entre si. Há já uns dias, o Governo egípcio tinha mandado desligar qualquer acesso ao Facebook e ao Twitter, as redes sociais que os líderes dos protestos estavam a utilizar para organizar os participantes na revolta.
O corte terá acontecido por volta das 0h34 no Egito (2h34 em Lisboa). O próprio site da RTP, que costuma receber cerca de 15 visitas por dia de utilizadores no Egito, não tem qualquer acesso a partir daquele país.
A empresa norte-americana Renesys, especialista de segurança na Internet, revela no seu site que o corte aconteceu de forma simultânea nos vários routers do país, deixando sem resolução os endereços situados no Egito. "Numa ação sem precedentes na história da Internet, o Governo egípcio terá ordenado aos provedores de acesso que desligassem todas as ligações internacionais à Internet", diz o blogue da empresa Renesys. "A Link Egypt, a Vodafone/Raya, a Telecom Egypt, a Etisalat Misr e todos os seus clientes e parceiros estão, neste momento, desligados".
Para esta empresa, trata-se de "uma situação completamente diferente da modesta manipulação da Internet que aconteceu na Tunísia, quando foram bloqueados percursos específicos", ou no Irão, onde a Internet ficou muitíssimo lenta, mas nunca foi totalmente cortada: "As ações do Governo egípcio desta noite apagaram pura e simplesmente o seu país da Internet".
Portugueses no Egito
Apesar do quadro explosivo, ainda há portugueses dispostos a partir para o Egito. Até ao momento, não houve qualquer pedido de ajuda por parte de cidadãos portugueses naquele país do norte de África, onde os serviços diplomáticos afiançam estar a acompanhar a situação e têm cerca de 100 nomes registados.
Por razões de segurança, o Governo português está a desaconselhar as viagens para o país. Ainda assim, na quinta-feira três dezenas de portugueses rumaram ao Cairo.
A Secretaria de Estado das Comunidades realça, contudo, que as manifestações que se verificam nas principais cidades egípcias não têm sido hostis aos estrangeiros e recomenda que "as pessoas se mantenham tranquilamente em casa a aguardar a evolução dos acontecimentos".
Diversos repórteres no Cairo relataram também ataques generalizados a esquadras de polícia. Várias unidades do Exército, apoiadas por veículos blindados, circulavam esta sexta-feira pela capital. Ainda não é claro, porém, se o dispositivo militar permanece fiel ao Governo. Imagens emitidas pelas televisões mostram os tanques a serem recebidos com aplausos da população. Segundo noticiou a Associated Press, o edifício do Ministério dos Negócios Estrangeiros terá sido alvo de uma tentativa de invasão por parte de grupos de manifestantes. O cenário repetiu-se nas instalações da televisão estatal, onde os manifestantes terão feito estragos.
Perante a marcha da contestação, que perdura há já quatro dias, o Governo destacou tropas para as grandes cidades do país. Contudo, no Cairo, em Alexandria e Suez, milhares de manifestantes permanecem nas ruas, ignorando o recolher obrigatório imposto pelas autoridades. Pelo menos cinco pessoas morreram nos confrontos desta sexta-feira. O número de feridos ascende a 870, de acordo fontes médicas citadas pela Reuters.
Nas grandes cidades egípcias, os manifestantes incendiaram pneus e veículos da polícia, que respondeu com granadas de gás lacrimogéneo, canhões de água, bastões, balas de borracha e, em alguns casos, fogo real. Ahmad Salah, um manifestante egípcio de 26 anos ouvido pela Associated Press, emprestou a voz à revolta diante da repressão das autoridades: "Não posso acreditar que a nossa própria polícia e o nosso próprio Governo continuem a bater-nos desta maneira. Estou aqui há horas, fui gaseado e continuo a avançar. Este é um Governo cobarde e que tem de cair. Vamos assegurar-nos disso".
ElBaradei em prisão domiciliária
Promovidos pelo autodenominado "Movimento 6 de Abril" - uma organização de jovens inspirada na "revolução do jasmim", que levou à capitulação de Zine al-Abidine Ben Ali na Tunísia - os protestos da "sexta-feira da cólera" contaram com a participação de Mohamed ElBaradei e dos Irmãos Muçulmanos, uma das principais forças da Oposição. Nas ruas, a polícia recebeu o antigo número um da Agência Internacional de Energia Atómica e Prémio Nobel da Paz com canhões de água. ElBaradei esteve cercado numa mesquita. Quando regressou a casa, a polícia comunicou-lhe que ficaria em prisão domiciliária.
Em Washington, o Presidente norte-americano, Barack Obama, esteve já reunido com a sua equipa de Segurança Nacional para analisar a situação do regime egípcio, entre os mais importantes aliados regionais dos Estados Unidos. Referindo-se ao país mais populoso do mundo árabe (80 milhões de habitantes) como um "forte parceiro", a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, apelou à cúpula política do regime para que ponha em prática um conjunto de reformas que permita aplacar a ira popular: "Queremos continuar a ser parceiros do Governo e do povo egípcio. O que vier eventualmente a acontecer no Egito cabe aos egípcios".
"Enquanto parceiros do Egito, apelamos a que haja contenção por parte das forças de segurança, a que não haja pressa em impor medidas muito restritivas que sejam violentas e a que haja um diálogo entre o Governo e o povo do Egito", insistiu Clinton.
Num sinal de que a Administração Obama ainda não estará preparada para deixar cair Hosni Mubarak, o Pentágono decidiu levar por diante as reuniões com altas patentes militares do Egito que decorrem desde quarta-feira em Washington. Entre os interlocutores do Departamento de Defesa dos Estados Unidos está o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Sami Anan, que já deu indicações de que pretende regressar a casa nas próximas horas.
Egito desligado da Internet
Durante a madrugada de sexta-feira, o Governo egípcio deu ordem aos operadores do país para desligaram todo o acesso à Internet, como forma de dificultar a organização dos protestos no país. O próprio site do Governo egípcio ficou indisponível.
As redes de telemóvel também foram desligadas pelas mesmas razões, evitando-se assim que os manifestantes possam trocar SMS entre si. Há já uns dias, o Governo egípcio tinha mandado desligar qualquer acesso ao Facebook e ao Twitter, as redes sociais que os líderes dos protestos estavam a utilizar para organizar os participantes na revolta.
O corte terá acontecido por volta das 0h34 no Egito (2h34 em Lisboa). O próprio site da RTP, que costuma receber cerca de 15 visitas por dia de utilizadores no Egito, não tem qualquer acesso a partir daquele país.
A empresa norte-americana Renesys, especialista de segurança na Internet, revela no seu site que o corte aconteceu de forma simultânea nos vários routers do país, deixando sem resolução os endereços situados no Egito. "Numa ação sem precedentes na história da Internet, o Governo egípcio terá ordenado aos provedores de acesso que desligassem todas as ligações internacionais à Internet", diz o blogue da empresa Renesys. "A Link Egypt, a Vodafone/Raya, a Telecom Egypt, a Etisalat Misr e todos os seus clientes e parceiros estão, neste momento, desligados".
Para esta empresa, trata-se de "uma situação completamente diferente da modesta manipulação da Internet que aconteceu na Tunísia, quando foram bloqueados percursos específicos", ou no Irão, onde a Internet ficou muitíssimo lenta, mas nunca foi totalmente cortada: "As ações do Governo egípcio desta noite apagaram pura e simplesmente o seu país da Internet".
Portugueses no Egito
Apesar do quadro explosivo, ainda há portugueses dispostos a partir para o Egito. Até ao momento, não houve qualquer pedido de ajuda por parte de cidadãos portugueses naquele país do norte de África, onde os serviços diplomáticos afiançam estar a acompanhar a situação e têm cerca de 100 nomes registados.
Por razões de segurança, o Governo português está a desaconselhar as viagens para o país. Ainda assim, na quinta-feira três dezenas de portugueses rumaram ao Cairo.
A Secretaria de Estado das Comunidades realça, contudo, que as manifestações que se verificam nas principais cidades egípcias não têm sido hostis aos estrangeiros e recomenda que "as pessoas se mantenham tranquilamente em casa a aguardar a evolução dos acontecimentos".