"Continuem a sonhar". Rutte adverte que Europa não se consegue defender sem EUA

"Continuem a sonhar". Rutte adverte que Europa não se consegue defender sem EUA

Na visão do secretário-geral da Aliança Atlântica, a Europa não se consegue defender sozinha nem sem a ajuda dos Estados Unidos.

Inês Moreira Santos - RTP /
Yves Herman - Reuters

Diante uma plateia de eurodeputados, em Bruxelas, Mark Rutte advertiu que se a União Europeia, ou mesmo a Europa, pensa que se pode defender sem os Estados Unidos podem, então, “continuar a sonhar”. E da mesma forma, sublinhou, os EUA precisam da NATO.

“Se alguém aqui acha que a União Europeia, ou a Europa, se conseguiria defender sem os Estados Unidos… Continuem a sonhar. Não conseguem. Não conseguimos. Precisamos uns dos outros”, afirmou Mark Rutte numa audição no Parlamento Europeu.

Deixando críticas à ideia “irrealista” de desenvolver um pilar europeu de Defesa autónomo, que garantisse a proteção da UE, o secretário-geral da NATO frisou que seria necessário um investimento de 10 por cento do PIB por Estado-membro.

“Se quiserem realmente avançar sozinhos, esqueçam, porque nunca chegarão lá com 5 por cento [do PIB destinado a Defesa]. Seriam necessários 10 por cento. Teriam de desenvolver as vossas próprias capacidades nucleares. Isso custa milhares de milhões de euros”, avisou. 
“E, nesse cenário, vocês perderiam o principal garante da nossa liberdade, ou seja, o guarda-chuva nuclear norte-americano. Então, boa sorte!".

Os 32 países da NATO comprometeram-se a destinar pelo menos 5 por cento do seu PIB para gastos com segurança até 2035, incluindo 3,5 por cento para despesas estritamente militares. Valor que já representa um compromisso considerável para muitos países, que mal atingiram 2 por cento do seu PIB até o final de 2025, em conformidade com um compromisso assumido dez anos antes.

E entre as questões dos parlamentares europeus, Rutte repetiu: “A Europa não pode defender-se sozinha, sem a ajuda dos Estados Unidos, e precisaria do guarda-chuva nuclear norte-americano".

No entanto, Mark Rutte defendeu que os Estados Unidos também precisam da NATO, salientando que o facto de terem ignorado a Europa após a Primeira Guerra Mundial foi “um erro”, que os levou a terem de envolver-se na Segunda Guerra Mundial.

“E o Ártico também é prova disso. Eles precisam de segurança no Ártico, na região do Euro-atlântico e na Europa. Por isso, os Estados Unidos têm tanto interesse na NATO como o Canadá ou os aliados Europeus”.

E, mesmo com a evolução das prioridades norte-americanas, "haverá sempre uma presença convencional muito forte dos EUA na Europa".Rutte rejeitou ainda a ideia de que a atual administração dos Estados Unidos não está comprometida com o artigo 5.º da NATO, que estabelece o princípio da defesa coletiva, referindo que, na última cimeira dos líderes da Aliança, em julho em Haia, ao comprometerem-se com um investimento em Defesa de 5 por cento do PIB, os aliados tiraram a “pedra no sapato” que havia nas relações com Washington.

“O [assunto] irritante desapareceu. Por isso há um compromisso total dos Estados Unidos com a NATO e com o artigo 5.º”, garantiu.
Rutte acordou com Trump reforço da NATO no Ártico
Na mesma audição em Bruxelas, O secretário-geral da NATO disse ter acordado com o presidente dos Estados Unidos, em Davos, um reforço da presença da Aliança no Ártico para impedir que a Rússia e a China ganhem acesso militar e económico à região.

“O que saiu da reunião de quarta-feira [em Davos] são pelo menos duas questões que têm de ser tratadas. A primeira é a Rússia. A segunda é a China. Como impedir que esses dois países ganham acesso ao Ártico, seja em termos militares, seja em termos económicos”
, afirmou Mark Rutte, referindo-se ao encontro que manteve com Donald Trump à margem do Fórum Económico Mundial.

Após ter sido questionado várias vezes por eurodeputados sobre a conversa que teve em Davos, na Suíça, com Trump sobre a Gronelândia, que levou o presidente norte-americano a retirar a ameaça de impor tarifas a países europeus, Rutte disse que, nesse encontro, se chegou a acordo relativamente a “dois eixos de trabalho” sobre o território autónomo dinamarquês que é cobiçado por Washington.

“O primeiro é que a NATO irá, coletivamente, assumir mais responsabilidades na defesa do Ártico”, disse, recordando que sete dos oito países com presença no Ártico pertencem à Aliança Atlântica: os Estados Unidos, o Canadá, a Dinamarca, a Noruega, a Islândia, a Finlândia e a Suécia. "O oitavo é a Rússia que, claro, não pertence à NATO".

"Um dos pontos centrais é ver como é que, coletivamente, podemos impedir que os russos e os chineses tenham mais acesso ao Ártico, incluindo impedir que eles tenham acesso militar e económico à região”, disse.
Segundo Rutte, a NATO estará “claramente no comando”, frisando que ele próprio estará “diretamente envolvido” e procurará perceber como é que a Aliança pode “defender coletivamente o Ártico”.

Além disso, é necessário garantir que o diálogo sobre a Gronelândia que se iniciou há duas semanas entre a Dinamarca, a Gronelândia e os Estados Unidos, com um encontro entre os chefes da diplomacia na Casa Branca, se mantém.

“Agora cabe aos dinamarqueses, gronelandeses e americanos fazê-lo. Eu não estarei envolvido nesse eixo de trabalho”, acrescentou.

Na quarta-feira passada, Trump retirou a ameaça de anexar a Gronelândia à força e de aumentar tarifas aduaneiras sobre alguns países europeus por se oporem à proposta de aquisição do território dinamarquês.

Trump alegou questões de segurança nacional perante ameaças russa e chinesa para querer a ilha do Ártico, que também possui grandes reservas de hidrocarbonetos e de minérios.

O presidente dos EUA e secretário norte-americano de Defesa, Pete Hegseth, têm alertado repetidamente os aliados europeus de que agora precisam de depender mais das próprias forças armadas para garantir a sua segurança. Desde então, esses aliados têm tentado fortalecer o pilar europeu dentro da NATO, principalmente por meio do desenvolvimento de próprias indústrias de defesa.

A França é um dos países mais favoráveis ​​a essa "autonomia estratégica" na Europa, mas outros países, particularmente aqueles geograficamente próximos à Rússia, são mais cautelosos, muito devido à sua dependência de sistemas de armas norte-americanos.

C/agências
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