Costa do Marfim escolhe Presidente em eleições marcadas pela exclusão de candidatos

Costa do Marfim escolhe Presidente em eleições marcadas pela exclusão de candidatos

Os eleitores da Costa do Marfim escolhem no sábado o Presidente da República, sendo que a corrida presidencial foi marcada por contestações, desinformação, exclusão dos principais opositores e receio de uma nova agitação pós-eleitoral.

Lusa /
Thierry Gouegnon - Reuters

Das 60 candidaturas à corrida presidencial, somente cinco - incluindo a do atual Presidente, Alassane Ouattara -, foram aceites pelo Conselho Constitucional, segundo a lista definitiva publicada pelo órgão em 08 de setembro.

Alassane Ouattara, de 83 anos, assumiu o cargo em 2011, na sequência do conflito pós-eleitoral de 2010-2011. Este conflito, que resultou em mais 3.000 mortos e deixou o país à beira de uma guerra civil, ocorreu após o principal opositor e ex-Presidente, Laurent Gbagbo, se ter recusado a aceitar a derrota eleitoral, culminando na sua captura e na da sua mulher, Simone Gbagbo.

Os principais candidatos da oposição, Laurent Gbagbo e Tidjane Thiam, foram excluídos da corrida presidencial, sendo as suas candidaturas rejeitadas pelo Conselho Constitucional. O primeiro devido a uma condenação judicial ocorrida em 2018 e o segundo por questões de nacionalidade.

Esta decisão reforça a probabilidade do atual chefe de Estado ganhar as eleições.

O Presidente marfinense, da União dos Houphouëtistas pela Democracia e a Paz (RHDP), originalmente limitado a dois mandatos, procura ser reeleito, sendo que os dois principais partidos da oposição protestam contra o quarto mandato do Chefe de Estado e consideram-o inconstitucional.

A atual lei da Costa do Marfim prevê um máximo de dois mandatos, mas o Conselho Constitucional considerou em 2020 que a adoção de uma nova Constituição quatro anos antes tinha reposto o contador dos mandatos presidenciais a zero.

Nesta eleição presidencial, o chefe de Estado enfrentará os ex-ministros Jean-Louis Billon e Ahoua Don Mello, bem como a ex-primeira-dama Simone Ehivet Gbagbo, do Movimento das Gerações Capazes (MGC), e Henriette Lagou, que também foi candidata em 2015, do partido Renovação para a Paz e a Concórdia (RPC-PAIX).

O ex-ministro do Comércio, Jean-Louis Billon, é dissidente do Partido Democrático da Costa do Marfim (PDCI), de Thiam, mas irá concorrer à presidência sob a bandeira de uma coligação de pequenos partidos denominada de Congresso Democrático.

Já Ahoua Don Mello é ex-membro do Partido Popular Africano - Costa do Marfim (PPA-CI), de Gbagbo, e concorre como independente sem o apoio do partido.

A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) enviou no inicio deste mês uma missão de observação eleitoral para a Costa do Marfim, com o objetivo de monitorizar todas as etapas do processo eleitoral.

A Agência Nacional para a Segurança dos Sistemas de Informação (ANSSI), sediada em Abidjan, Costa de Marfim, reportou campanhas de desinformação, feitas através de contas falsas com ligações ao Burkina Faso e a outras juntas militares do Sahel, destinadas a desestabilizar as instituições marfinenses e a perturbar as eleições, com táticas que incluíam a divulgação de notícias falsas, como por exemplo, a morte do Presidente ou um suposto golpe de Estado.

Em resposta a este problema, uma grande campanha publicitária, denominada de "Notícias falsas dividem, informações unem", foi veiculada nas ruas da cidade de Abidjan.

A campanha eleitoral começou a 10 de outubro neste país com 8,7 milhões de eleitores.

Os principais partidos da oposição convocaram manifestações, exigindo diálogo político, a menos de duas semanas das eleições, sendo que os protestos causaram um morto, segundo a polícia, e três mortos, de acordo com a oposição.

Em 11 de outubro, centenas de pessoas responderam ao apelo da oposição para marchar em Abidjan, a maior cidade do país, mas a polícia dispersou a manifestação, com recurso a gás lacrimogéneo, e deteve 237 pessoas, de acordo com o Ministério do Interior, que tinha proibido marchas e reuniões a contestar as decisões do Conselho Constitucional.

Nas eleições de 2020 foram marcadas por diversos distúrbios e confrontos, causando pelo menos 85 vítimas mortais e feridos.

O diretor da África Ocidental no International Crisis Group (ICG), Rinaldo Dapgne, afirmou que a situação permanece calma "comparando com o que aconteceu em 2020".

Segundo um relatório da ICG, nenhuma eleição presidencial na Costa do Marfim desde 1995 resultou numa mudança pacífica de poder.

A Costa do Marfim, com uma população com cerca de 32 milhões de habitantes, é um país importante na zona da CEDEAO, composta por 15 países, incluindo os lusófonos Cabo Verde e Guiné-Bissau.

A base da economia do país da África Ocidental é o cacau, que representa 40% da produção mundial, o maior produtor, e 14% do seu Produto Interno Bruto (PIB), e o marfim. O cultivo de palmeiras-de-dendé e seringueiras são também um dos pilares da economia marfinense.

Entre 2002 e 2007, a Costa do Marfim mergulhou numa guerra civil, sendo o conflito alimentado por divisões étnicas que opuseram o sul do país ao norte.

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