Costa e Von der Leyen lamentam "chocante" apoio oficial em funeral de Mladic na Sérvia
O presidente do Conselho Europeu e a presidente da Comissão Europeia lamentaram hoje "profundamente" o apoio oficial "chocante" e a presença de altos responsáveis sérvios no funeral do antigo comandante sérvio-bósnio Ratko Mladic, condenado por crimes de guerra.
Num comunicado conjunto publicado nas redes sociais, António Costa e Ursula von der Leyen afirmam que as imagens do funeral, realizado na segunda-feira em Belgrado, foram "chocantes", recordando que Ratko Mladic morreu enquanto cumpria uma pena de prisão perpétua pelo genocídio de Srebrenica e outros crimes.
"Os sinais de apoio oficial e a presença de alguns altos responsáveis sérvios no funeral são profundamente lamentáveis", criticam os responsáveis europeus, considerando que estes acontecimentos demonstram "uma incapacidade de enfrentar um capítulo sombrio da história recente da Europa".
Para os dois responsáveis europeus, estas manifestações contradizem igualmente "os valores que sustentam o percurso da Sérvia rumo à União Europeia".
Ratko Mladic foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo a responsabilidade pelo genocídio de Srebrenica, em 1995.
"Os nossos pensamentos estão com todas as vítimas dos crimes cometidos nos países da antiga Jugoslávia", concluem Costa e Von der Leyen.
Milhares de pessoas reuniram-se na segunda-feira em Belgrado para o funeral do antigo líder militar sérvio-bósnio Ratko Mladic, com Bruxelas a rejeitar novamente a glorificação de um homem condenado por genocídio durante a Guerra da Bósnia.
Ratko Mladic morreu no final de agosto, aos 84 anos, em Haia, nos Países Baixos, onde cumpria pena de prisão por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos durante o sangrento conflito.
O ministro da Justiça sérvio, Nenad Vujic, anunciou inicialmente "honras militares e de Estado" para Mladic, o que gerou indignação internacional, antes de o Presidente, Aleksandar Vucic, moderar a decisão.
Vucic rejeitou as acusações de "glorificação" do antigo general, afirmando que a cerimónia seria realizada de acordo com os desejos da família.
"A glorificação dos criminosos de guerra, a negação do genocídio e o revisionismo (...) não têm lugar na União Europeia nem nos países candidatos", como é o caso da Sérvia, afirmou um porta-voz do serviço diplomático da UE.
Em Belgrado, muitos fiéis, muitos envergando t-shirts glorificando Mladic, apelidado de "Carniceiro dos Balcãs" pelos meios de comunicação internacionais, reuniram-se na pequena igreja ortodoxa de São Lucas logo pela manhã, numa cerimónia que fazia lembrar um funeral nacional.
Nesta homenagem final, organizada oficialmente pelo filho Darko, muitos beijaram o caixão fechado de Mladic.
Após várias horas de velório, o chefe da Igreja Ortodoxa sérvia realizou uma cerimónia religiosa.
Apesar da sua condenação, muitos nacionalistas sérvios continuam a ver Ratko Mladic como um herói e protetor, particularmente na República Sérvia (Srpska), onde o anúncio da morte levou a manifestações em honra de Mladic.
A comissária europeia para o Alargamento, Marta Kos, cancelou na sexta-feira uma visita planeada à Sérvia que devia iniciar-se na quarta-feira, explicando que "a glorificação da morte" de Mladic é "incompatível com os valores sobre os quais a UE foi construída".
O massacre em Srebrenica foi o primeiro genocídio reconhecido na Europa depois da Segunda Guerra Mundial.