Covid-19. Confinamentos regressam hoje à Europa envoltos em protestos

Esta segunda-feira traz o regresso de medidas restritivas e confinamentos em várias nações europeias, numa altura em que a pandemia de covid-19 está, mais uma vez, descontrolada. Áustria, Países Baixos, Bélgica e Croácia são apenas alguns dos países onde o fim de semana foi marcado por protestos, muitas das vezes violentos, contra as restrições. Entre as novas medidas está a imposição de certificado digital, a vacinação obrigatória ou o encerramento de setores e atividades.

Joana Raposo Santos - RTP /
A Organização Mundial de Saúde já manifestou preocupação com o aumento de casos de covid-19 na Europa. Johanna Geron - Reuters

A Áustria foi a primeira a reimpor, com início esta segunda-feira, o confinamento de toda a população para travar o aumento de infeções pelo novo coronavírus. O chanceler Alexander Schallenberg decidiu ainda tornar a vacinação obrigatória a partir de 1 de fevereiro.

O Governo austríaco estabeleceu uma duração inicial de dez dias para o novo confinamento, período durante o qual a maioria das lojas terá de fechar, os eventos culturais serão cancelados e os alunos voltarão a ter aulas online. Este período poderá ser renovado para um máximo de 20 dias, caso dez não sejam suficientes para diminuir os novos casos de infeção.

O confinamento na Áustria implica que as pessoas apenas saiam de casa por um número limitado de razões, como ir trabalhar ou comprar bens essenciais. Os encontros entre pessoas de agregados familiares diferentes estão limitados a dois participantes.

O ministro da Saúde austríaco, Wolfgang Mueckstein, já explicou que as escolas permanecerão abertas para aqueles que precisarem de ir, mas apelou a todos os pais para, se possível, manterem os seus filhos em casa.

Temos de “enfrentar a realidade”, afirmou o chanceler Schallenberg numa conferência de imprensa na última semana. “Apesar de meses de persuasão, não conseguimos convencer um número suficiente de pessoas a vacinarem-se”.

As notícias não foram bem recebidas pela população. Nas vésperas do regresso daquele que é já o quarto confinamento no país, dezenas de milhares de manifestantes, incluindo membros de grupos de extrema-direita, marcharam em Viena contra o confinamento nacional.
Foto: Leonhard Foeger - Reuters

Segundo as autoridades, terão sido cerca de 35 mil os participantes em diferentes marchas pela capital, sendo que a maioria não usava máscara.

Num país onde menos de 66% da população está vacinada - uma das taxas mais baixas da Europa Ocidental -, o número de mortes diárias triplicou nas últimas semanas e os hospitais dos Estados mais atingidos estão a atingir o limite da capacidade.
Países Baixos sob tensão
Os protestos do fim de semana não se ficaram pela Áustria. Também nos Países Baixos, onde o Governo decretou um confinamento parcial durante três semanas, o encerramento da restauração às 20h00 e a proibição da entrada de pessoas não vacinadas em espaços públicos, milhares de habitantes caminharam pela terceira noite consecutiva contra as medidas.

Nas ruas de Amesterdão os protestos decorreram sem incidentes, mas tal não se verificou noutras cidades holandesas. Depois de, na sexta-feira, a polícia de Roterdão ter disparado para pôr fim a motins e sete pessoas terem ficado feridas, o fim de semana em Haia foi marcado por momentos de grande tensão nas ruas.

Manifestantes atacaram as autoridades com pedras e fogo-de-artifício e incendiaram bicicletas. Cinco agentes ficaram feridos e dezenas de pessoas foram detidas.

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, denunciou esta segunda-feira a “violência pura” por parte de pessoas “idiotas”.

Algumas centenas de pessoas também se manifestaram nas ruas da cidade de Breda, no sul dos Países Baixos, contra as restrições. Em Rosendaal, perto da fronteira com a Bélgica, 15 pessoas foram presas depois de terem iniciado um incêndio numa escola primária.
Bruxelas impõe uso de máscara e teletrabalho
Na Bélgica, o uso de máscara passou a ser obrigatório a partir dos dez anos e o teletrabalho voltou. A vacina contra a covid-19 poderá, muito em breve, tornar-se também obrigatória no país.

As medidas foram contestadas em força na capital belga, onde cerca de 35 mil pessoas se juntaram. Os protestos começaram pacificamente, mas rapidamente deram lugar a confrontos com a polícia, que acabou a usar canhões de água e gás lacrimogéneo contra os manifestantes que atiravam pedras, foguetes e bombas de fumo, segundo várias testemunhas.

“Liberdade” foi a palavra de ordem entre os participantes, com um deles a segurar um cartaz onde se lia: “Quando a tirania se transforma em lei, a rebelião torna-se um dever”.
França intervém após violência em Guadalupe
Em França, o ministro do Interior, Gerald Darmanin, condenou os violentos protestos na ilha caribenha de Guadalupe, um dos territórios ultramarinos do país, onde 29 pessoas foram detidas pela polícia quando protestavam contra a decisão de impor um recolher noturno (das 18h00 às 05h00 locais) a partir de terça-feira.

Naquela que foi a terceira noite consecutiva de motins, com lojas a serem vandalizadas e carros incendiados, a polícia prendeu pelo menos 38 pessoas. Segundo a imprensa local, houve tiros disparados contra as autoridades.

O Executivo francês decidiu, no domingo, enviar para Guadalupe cerca de 50 membros das forças de elite para restaurar a ordem. O primeiro-ministro Jean Castex irá esta segunda-feira reunir em Paris com os líderes da ilha para discutir a situação.

Os sindicatos guadalupenses começaram esta manhã uma greve por tempo indefinido para protestarem a imposição de passes sanitários e a vacinação obrigatória dos trabalhadores de saúde contra a covid-19.
Croácia tem mais de metade dos cidadãos por vacinar
Na Croácia, milhares ergueram a voz contra a vacinação obrigatória dos cidadãos para trabalhar. Com quatro milhões de habitantes, apenas 47 por cento da população do país dos Balcãs tem a vacinação completa.

Apesar de números recorde de infeções e da morte de meia centena de pessoas todos os dias, um mar de pessoas juntou-se na capital, Zagreb, carregando bandeiras croatas e símbolos nacionalistas e religiosos, juntamente com bandeiras contra a vacinação e o que descrevem como restrições às liberdades das pessoas.
Suíços, italianos e irlandeses contra regresso de restrições
Na Suíça, cerca de duas mil pessoas protestaram contra um referendo sobre a aprovação da lei que permite a imposição de restrições, alegando que é discriminatória, informou a emissora pública SRF.

Em Itália, três mil habitantes juntaram-se em torno do Circo Maximus, em Roma, para protestar contra a exigência do certificado que garante que se está vacinado ou livre da covid-19 para aceder aos locais de trabalho, restaurantes, cinemas, teatros, recintos desportivos e ginásios, bem como para viagens de longa distância de comboio, autocarro ou ferry.

Na Irlanda do Norte, várias centenas de pessoas que se opõem ao certificado covid-19 protestaram à porta da Câmara Municipal de Belfast, depois de o Governo ter decidido esta semana restringir horários e tornar o documento obrigatório para admissão em clubes noturnos, bares e restaurantes.
Pandemia já matou mais de 5,4 milhões
A Organização Mundial de Saúde já manifestou preocupação com o aumento de casos de covid-19 na Europa e advertiu que cerca de 500 mil pessoas podem morrer até março de 2022 se não forem tomadas medidas urgentes.

A covid-19 provocou já pelo menos 5,4 milhões de mortes em todo o mundo, entre mais de 257 milhões de infeções pelo novo coronavírus registadas desde o início da pandemia, segundo o mais recente balanço da agência France-Presse.

A doença respiratória é provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, detetado no final de 2019 em Wuhan, cidade do centro da China, e atualmente com variantes identificadas em vários países.

c/ agências
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