Covid-19. França acusa Reino Unido de estar a fazer "chantagem" com entregas de vacinas

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, acusou esta sexta-feira o Reino Unido de estar a fazer "chantagem" com a exportação de vacinas contra a Covid-19, porque estão "atrasados" e "com problemas" na administração da segunda dose à população.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Benoit Tessier - Reuters

A guerra de palavras entre Bruxelas e Londres subiu de tom depois de o ministro francês dos Negócios Estrangeiros ter acusado o Reino Unido de estar a fazer “chantagem” com a exportação de vacinas contra a Covid-19.

Precisamos de construir uma relação de cooperação, mas não podemos negociar desta forma”, disse o ministro Jean-Yves Le Drian esta sexta-feira, em declarações à rádio France Info.

Para o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, a UE “não devia estar a pagar o preço” pela política de vacinação do Reino Unido, considerando que Londres está a recorrer à chantagem por não ter asseguradas as segundas doses necessárias para completar a vacinação da população já inoculada uma vez.

O Reino Unido está orgulhoso de ter vacinado tantas pessoas com a primeira dose, mas eles vão ter um problema com a segunda dose”, disse Le Drian. “Não podemos fazer chantagem porque estamos um pouco atrasados” na distribuição da segunda dose da vacina, afirmou o ministro, lembrando que “a Europa não tem nada a ver” com esse problema. Segundo os dados mais recentes do Governo britânico, 55 por cento dos adultos do Reino Unido já receberam a primeira dose da vacina, mas apenas 5,3 por cento receberam a segunda.

Jean-Yves Le Drian não especificou durante a entrevista o que descreve como “chantagem”, mas na quarta-feira, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, alertou para as consequências em termos de investimentos económicos de "bloqueios arbitrários" na exportação de vacinas e para danos a longo prazo.

"Gostaria apenas de referir delicadamente a qualquer pessoa que esteja a considerar um bloqueio, ou uma interrupção das cadeias de abastecimento, que as empresas podem olhar para tais ações e tirar conclusões sobre se é ou não sensato fazer investimentos futuros em países onde bloqueios arbitrários são impostos", disse Johnson, depois de a Comissão Europeia ter decidido reforçar o mecanismo de autorização de exportações de vacinas contra a Covid-19 para fora da União Europeia, dando mais margem ao bloqueio do envio de vacinas para países com taxas de vacinação mais elevadas.
“O fim da ingenuidade” da UE
A campanha de vacinação tem sido mais bem-sucedida no Reino Unido do que nos 21 países-membros da UE. Apenas 18,2 milhões de adultos na UE receberam já a segunda dose da vacina contra a Covid-19, o que significa que só 4,1 por cento da população europeia está completamente imunizada, segundo a informação divulgada pela Comissão Europeia na quinta-feira.

Bruxelas responsabiliza as farmacêuticas, principalmente a AstraZeneca, pelo atraso na vacinação, ao não estarem a cumprir os contratos de fornecimento de vacinas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, admitiu na quinta-feira que a União Europeia podia "ter sido muito mais rápida" na vacinação contra a Covid-19 "se as farmacêuticas tivessem cumprido os contratos".

Von der Leyen acrescentou que o bloco europeu é “a região que mais exporta vacinas em todo o mundo” e convidou os restantes países “a juntarem-se a nós nesta transparência”. A presidente da Comissão Europeia disse depois que “as empresas farmacêuticas têm de honrar os contratos com UE antes de poderem exportar para outras regiões no mundo”, acrescentando que “este é, claro, o caso da AstraZeneca”.

Perante esta guerra em torno das vacinas, vários países europeus têm pressionado por mais rigidez no controlo das doses de vacinas exportadas pela UE. No início de março, o ministro francês da Saúde admitiu seguir o exemplo de Itália – que bloqueou o envio de vacinas da AstraZeneca para a Austrália – e bloquear as exportações para fora da União Europeia.

Na quinta-feira, depois do Conselho Europeu que decorreu de forma virtual na quinta-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu que a reunião marcou “o fim da ingenuidade” do bloco europeu.Eu apoio o facto de que devemos bloquear todas as exportações enquanto algumas farmacêuticas não respeitarem os seus compromissos”, argumentou Macron.

Até ao final deste primeiro trimestre, de acordo com Bruxelas, chegarão à UE quase 100 milhões de doses de vacinas, a grande parte da Pfizer/BioNTech (66 milhões, mais do que os 65 milhões inicialmente acordadas). Da Moderna chegarão dez milhões de vacinas e da parte da AstraZeneca espera-se a entrega de 30 milhões de doses, menos 90 milhões do que as inicialmente acordadas.

O próximo encontro entre responsáveis da UE e do Reino Unido está previsto para sábado. Os dois comprometeram-se em encontrar "medidas específicas" com vantagens mútuas para expandir o fornecimento de vacinas contra a Covid-19, mas o Guardian avança que fontes próximas explicam que as diferenças entre os dois blocos são “gritantes”.
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