Covid-19. Gravidade da nova estirpe de coronavírus ainda tem de ser avaliada

A nova variante do coronavírus que provoca a covid-19, detetada em Inglaterra, tem gerado preocupação na comunidade científica, embora sem provas de que seja mais letal ou tenha impacto na eficácia das vacinas.

Lusa /
A nova estirpe de coronavírus ainda tem de ser avaliada pela comunidade científica Reuters

Novas variantes já foram observadas desde que o novo coronavírus SARS-CoV-2 foi detetado pela primeira vez em Wuhan, na China, em dezembro de 2019, mas a estirpe mais recente levou vários países europeus a suspenderem voos e transportes marítimos oriundos do Reino Unido.

O Governo português também restringiu a entrada no país de passageiros de voos provenientes do Reino Unido a cidadãos nacionais ou legalmente residentes em Portugal, anunciaram os ministérios da Administração Interna e da Saúde.

Os Estados-membros da União Europeia (UE) vão reunir-se de emergência esta segunda-feira para discutir a nova variante do SARS-Cov-2, visando coordenar as respostas comunitárias, anunciou o porta-voz da presidência alemã da UE, Sebastian Fischer.

A pandemia de covid-19 provocou pelo menos 1.685.785 mortos resultantes de mais de 76,2 milhões de casos de infeção em todo o mundo, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

- Como surgiu a nova variante do coronavírus?

Durante o seu processo evolutivo, os vírus costumam adquirir pequenas alterações no código genético. Uma estirpe levemente modificada pode tornar-se mais comum num país ou região apenas por se ter instalado ali primeiro.

Eventos propícios à propagação do vírus em larga escala também ajudam a multiplicar a nova estirpe, assente em quase duas dúzias de mutações da proteína da espícula, que o vírus usa para se ligar e infetar as células humanas.

Numa resposta escrita enviada à Lusa, a Direção-Geral da Saúde (DGS) disse que, de modo geral, “os vírus mudam constantemente por meio de mutações e o surgimento de uma nova variante é uma ocorrência esperada e não é motivo de preocupação por si só”.

No Reino Unido, as autoridades notificaram a Organização Mundial da Saúde sobre uma nova estirpe em circulação desde setembro, que poderia estar associada à aceleração do número de infeções em Londres e em vários condados das regiões sudeste e leste.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anunciou no sábado um novo confinamento em Londres, no sudeste da Inglaterra e em parte do leste do país, limitando a circulação de mais de 20 milhões de pessoas durante as festividades do Natal.

- Que outras novas variantes do coronavírus foram identificadas?


Em abril, investigadores na Suécia encontraram um vírus com duas alterações genéticas, que pareciam torná-lo cerca de duas vezes mais infeccioso, tendo sido identificados à volta de seis mil casos de infeção pelo mundo, sobretudo na Dinamarca e na Inglaterra.

Diversas variações dessa estirpe surgiram nas últimas semanas, com a Dinamarca a relatar contaminações em quintas de criação de visons e uma equipa de investigadores sul-africanos a detetar uma nova variante com incidência em pacientes mais jovens.

De acordo com a informação científica disponível, que ainda é insuficiente para aferir o impacto na mortalidade por covid-19, especialistas em saúde têm concordado sobre um maior grau de infecciosidade da estirpe de coronavírus observada no Reino Unido face a outras.

A maioria das mutações não aumenta o risco para o ser humano. No entanto, algumas mutações ou combinações de mutações podem fornecer ao vírus uma vantagem seletiva, como o aumento da transmissibilidade ou como uma maior capacidade de evadir à resposta imune do hospedeiro”, referiu a DGS.

- A nova estirpe pode reinfetar pessoas ou diminuir a eficácia das vacinas?

A generalidade dos investigadores considera existir uma baixa possibilidade de que novas variantes sejam resistentes às vacinas, lembrando que estas produzem respostas direcionadas para todo o sistema imunitário e para a própria proteína da espícula.

Alguns países já começaram a administrar às populações doses das vacinas desenvolvidas pelas empresas norte-americanas Moderna e Pfizer, ambas suscetíveis de sofrer futuros ajustes, conforme evoluam as mutações do coronavírus.

As vacinas demonstraram ser capazes de induzir a produção de anticorpos protetores nos seres humanos contra várias regiões da espícula do vírus, pelo que, com base na opinião dos peritos do Reino Unido, não existem dados que sugiram a perda de eficácia das vacinas nesta nova variante”, esclareceu ainda a Direção-Geral da Saúde.
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