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COVID-19
Covid-19. O que falhou nos lares em Espanha?
Espanha é o país europeu com mais mortes por Covid-19 em casas de repouso e lares de terceira idade. A falta de dados precisos leva muitos a crer que o número de óbitos será superior ao conhecido e o Governo e as entidades responsáveis são acusados de má gestão da situação durante a pandemia, tendo deixado os idosos "abandonados à sua sorte".
Os dados oficiais das autoridades de saúde espanholas indicam que quase 19.500 pessoas que viviam em lares de idosos morreram, desde março, devido à infeção pelo novo coronavírus. O que significa que cerca de 72 por cento do número total de mortes no país ocorreu nestes estabelecimentos de saúde.
Não se sabe se estes são os números precisos. O Ministério da Saúde prometeu há mais de um mês publicar todas as informações relativas aos infetados e número de óbitos por Covid-19 nestas instituições, pedindo a todas as comunidades que enviassem os respetivos dados. Mas nem todos colaboraram nessa contagem, sendo por isso dificil precisar ou, pelo menos, homogeneizar e comparar os dados.
O número de mortos oficial em lares e até mesmo esta falta de certeza está a tornar-se, mais do que um assunto a debater, uma arma política entre os partidos e o Governo de Pedro Sánchez.
O número de mortos oficial em lares e até mesmo esta falta de certeza está a tornar-se, mais do que um assunto a debater, uma arma política entre os partidos e o Governo de Pedro Sánchez.
Madrid está no centro do debate político, sendo a região mais afetada e com maior número de óbitos confirmados nas instituições de saúde para idosos - 18 por cento do total de mortos na capital espanhola. Contudo, a presidente da comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, garante que esta região tem uma porcentagem muito menor de mortes em lares do que outras regiões autónomas.
Para dar resposta ao surto do novo coronavírus na região de Madrid, Díaz Ayuso lançou um plano de emergência para salvaguardar os residentes dos lares de idosos, no final de março, que consistia em garantir assistência médica nas instituições, evitando que as pessoas tivessem de ser deslocadas até aos hospitais. O plano falhou e, segundo os dados, a comunidade autónoma de Madrid é a que regista mesmo mais mortos por Covid-19 em lares de idosos.
Pablo Iglesias, vice primeiro-ministro, acusa a presidente da comunidade de Madrid de ter cometido um "possível crime" ao aprovar protocolos que limitavam o encaminhamento de doentes e pessoas dependentes para hospitais, segundo o El País.
Já o PP culpa o "comando único" do Governo pelo que aconteceu nas residências para a terceira idade. O Governo rejeita as acusações e relembra que a responsabilidade e os poderes de decisão são das comunidades autónomas.
O que é certo é que o assunto não está a passar despercebido e ainda esta semana, vai ser constituído um grupo de trabalho entre as Comunidades Autónomas e o Ministério dos Direitos Sociais para debater sobre o que aconteceu e definir quais as medidas para futuros surtos.
O que é certo é que o assunto não está a passar despercebido e ainda esta semana, vai ser constituído um grupo de trabalho entre as Comunidades Autónomas e o Ministério dos Direitos Sociais para debater sobre o que aconteceu e definir quais as medidas para futuros surtos.
Idosos foram deixados à sua sorte
Em Madrid, a Díaz Ayuso nomeou Encarnación Burgueño ficar na vanguarda da resposta do Ministério da Saúde, o que consistia na assistência médica dentro das próprias instituições, em vez de transferir as pessoas para os hospitais.
Mas o plano da assistência médica nos lares de idosos durou apenas 12 dias, tendo fracassado - nesse período registaram-se cerca de três mil mortes em instituições de terceira idade na capital espanhola.
Díaz Ayuso encarregou Antonio Burgueño - pai de Encarnación Burgueño e ex-diretor geral de hospitais comunitários - de coordenar o setor da saúde durante a pandemia. Em entrevista ao El País, Antonio Burgueño diz que "é hora de examinar o que foi feito de errado", antes que surja uma nova onda de surtos de Covid-19, em Espanha.
Mas o plano da assistência médica nos lares de idosos durou apenas 12 dias, tendo fracassado - nesse período registaram-se cerca de três mil mortes em instituições de terceira idade na capital espanhola.
Díaz Ayuso encarregou Antonio Burgueño - pai de Encarnación Burgueño e ex-diretor geral de hospitais comunitários - de coordenar o setor da saúde durante a pandemia. Em entrevista ao El País, Antonio Burgueño diz que "é hora de examinar o que foi feito de errado", antes que surja uma nova onda de surtos de Covid-19, em Espanha.
Quando foi contactado pela presidente da região de Madrid para estar na linha da frente no combate à pandemia e elaborar um plano de ação, Burgueño afirmou que era necessário um "plano de guerra", do estilo "militar".
Médico e sócio de uma empresa de consultoria especializada em questões de saúde, desenvolveu um programa com 270 medidas em apenas dois dias, incluindo a assistência médica nos lares de idosos. Mas depois de apresentadas as propostas de ação para combater o surto do Sars-Cov-2 em Madrid, Burgueño admite que passou para "segundo plano".
"Acho que quem desenhou o plano deveria executá-lo", lamentou.
O que falhou, segundo o pai da pessoa nomeada para liderar a resposta à Covid-19 na região de Madrid, foi que "a assistência médica nas residências não foi realizada". Ao contrário do que acontece no meio militar, "faltava hierarquia, velocidade e eficiência".
Mas "isso não aconteceu apenas na Comunidade de Madrid, mas nas 17 comunidades autónomas", acrescentou. "O meu plano era dar-lhes assistência com os mais de três mil médicos de cuidados primários da Comunidade, mas eles não foram (para as residências). Os cuidados primários na Espanha deixaram os idosos doentes para trás".
Mas "isso não aconteceu apenas na Comunidade de Madrid, mas nas 17 comunidades autónomas", acrescentou. "O meu plano era dar-lhes assistência com os mais de três mil médicos de cuidados primários da Comunidade, mas eles não foram (para as residências). Os cuidados primários na Espanha deixaram os idosos doentes para trás".
Faltou quem liderasse, faltou "um general" que coordenasse e incentivasse os profissionais de saúde e faltou "proteção".
Para Antonio Burgueño o problema foi geral: "Acredito que em toda a Espanha os idosos foram abandonados à sua sorte, incluindo em Madrid".
A assistência médica nos lares não era uma ideia recente para o médico espanhol.
"É algo que eu já tinha pensado antes", explicou. "Quando eu era diretor dos hospitais na Comunidade de Madrid, nas tardes de sexta-feira, as emergências de idosos ficam cheias. Não havia médico nas residências aos fins-de-semana. Os hospitais não são um cemitério. Não precisam de receber os idosos em agonia. Os idosos precisam de morrer numa residência, em casa ou numa unidade de cuidados paliativos, mas não num hospital. Propus em 2012 um plano para colocar médicos e enfermeiros de saúde pública em residências".
"É algo que eu já tinha pensado antes", explicou. "Quando eu era diretor dos hospitais na Comunidade de Madrid, nas tardes de sexta-feira, as emergências de idosos ficam cheias. Não havia médico nas residências aos fins-de-semana. Os hospitais não são um cemitério. Não precisam de receber os idosos em agonia. Os idosos precisam de morrer numa residência, em casa ou numa unidade de cuidados paliativos, mas não num hospital. Propus em 2012 um plano para colocar médicos e enfermeiros de saúde pública em residências".
O receio, agora, de Espanha é o aparecimento de novos surtos e a falta de capacidade de resposta no caso de começar uma nova vaga da pandemia. Esta terça-feira, o município de Huelva, recua para a fase 2 depois de terem sido detetados 14 casos positivos naquela região. O Governo espanhol já avisou que o estado de emergência pode ser novamente decretado se os surtos piorarem.