Covid-19. Sistema de saúde japonês perto do colapso

O sistema nacional de Saúde do Japão, que possui o maior número de camas hospitalares per capita do mundo desenvolvido, está a chegar ao limite devido à pandemia de Covid-19.

Cristina Sambado - RTP /
Eric Gaillard - Reuters

O país está a lidar com a pior vaga da pandemia. Nos últimos dois meses o número de novos casos duplicou, para mais de 408 mil casos.

Segundo a CNN, o sistema japonês foi elogiado, no passado, pela sua alta qualidade. O Governo de Tóquio chegou a creditar as taxas de expetativa de longevidade – das mais altas dos países da OCDE – a uma saúde acessível e de qualidade.

Apesar de os números de novos infetados estarem em queda (em janeiro o país registava uma média diária de sete mil casos e este mês o número baixou para os três mil), o sistema de saúde contínua sobre pressão.

A 4 de fevereiro, mais de 8.700 pessoas em dez prefeituras, com teste positivo para a Covid-19, aguardavam por uma cama de hospital ou uma vaga num centro de isolamento. Na semana anterior eram mais de 18 mil.

Esta quinta-feira, o país registou o pior dia de óbitos num só dia, ao contabilizar 121 mortos, o que elevou o total acumulado para 6.678.

No entanto, apesar do rápido aumento do número de novos casos e de óbitos, estes números ainda são mínimos em comparação com os Estados Unidos, onde os casos diários excedem 100 mil.
Seguro de saúde universal

Desde a década de 1960, o sistema de seguro de saúde universal do Japão oferece cobertura a todos os cidadãos japoneses – independentemente do salário ou das condições pré-existentes. Mas, para os especialistas, o fácil acesso ao atendimento fez com que muitos pacientes procurassem mais do que o necessário, considerando o sistema garantido.

Nós consideramos a saúde como a água da torneira, mas agora dezenas de milhares de pessoas com Covid-19 tiveram que ficar em casa e não podem ter acesso ao sistema de saúde, não podem ser hospitalizados e não podem ser vistos por médicos”, afirmou Kentaro Iwata, médico e professor do Hospital Universitário de Kobe.

A CNN dá o exemplo de Su, uma mãe solteira com dois filhos com várias patologias que a deixavam mais vulnerável aos piores efeitos da Covid-19, que teve se se isolar no seu pequeno quarto, durante quase duas semanas, enquanto os seus filhos de três e seis anos, dormiam sozinhos na sala de estar.

Quando a sua situação se agravou Su, de 32 anos, ligou para o centro de saúde da região de Hyogo para obter assistência, mas ninguém atendeu as suas chamadas.

“Essa é uma realidade muito dura, que é difícil de aceitar por muitos japoneses”, frisou Kentaro Iwata.

Segundo Naoiki Ikegami, professor emérito da Universidade de Keio, não é incomum que pacientes de Covid-19 com sintomas graves esperem por uma vaga no hospital.

Nas primeiras vagas de pandemia no Japão, a maioria das pessoas com teste positivo à Covid-19 era automaticamente hospitalizada, acrescentou Naoiki Ikegami.

“Foi assim que a Covid-19 foi tratada na primeira e na segunda vaga da pandemia. Então há uma expetativa de que qualquer pessoa infetada com o SARS-CoV-2 seja hospitalizada, mesmo que apenas com sintomas leves”, sublinhou o professor emérito da Universidade de Keio.

Desde então, o sistema foi ajustado para que nem todos os infetados sejam internados. Mas as taxas de hospitalização para Covid-19 são mais altas no Japão do que em outros países.

A maioria dos infetados está a receber tratamentos em grandes hospitais públicos. No entanto, a maioria das unidades hospitalares no país são privadas e a maior parte não tem equipamentos para tratar pacientes com Covid-19.

Segundo dados do Ministério da Saúde, só 30 por cento dos hospitais privados podem aceitar doentes com Covid-19. Um valor que sobe para 84 por cento no caso dos públicos.
Falhas no sistema
Dados da OCDE de 2019, revelavam que no Japão havia 13 camas hospitalares para cada mil pessoas. Nos Estados Unidos e no Reino Unido são três camas para cada mil pessoas. A média da OCDE é de 4,7.

Mas Naoiki Ikegami afirma que esses números são falaciosos. Apesar de o Japão ter um milhão de camas para uma população de cerca de 126 milhões, a maioria é em enfermarias. O país tem cerca de cinco camas em Unidades de Cuidados Intensivos para cada 100 mil pessoas. A Alemanha tem quase 34, o maior número da OCDE, e os Estados Unidos quase 26.

Outro dos problemas com que o país se depara é a falta de médicos infecciologistas. Segundo o Ministério da Saúde, o Japão tem apenas 1631 profissionais especializados em doenças infecciosas, o que significa que a maioria dos hospitais não tem um especialista em doenças infecciosas.

Ao contrário de outros territórios asiáticos próximos, como a China, Hong Kong, Coreia do Sul, Singapura e Taiwan, o Japão conseguiu evitar surtos de coronavírus anteriores, incluindo a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) e Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS).

“Muitas doenças respiratórias infeciosas não chegaram ao Japão, então não nos preparamos”, confessa o professor da Universidade de Keio.

“Não treinamos especialistas, não treinamos enfermarias dos hospitais e não preparamos o sistema de saúde para doenças infecciosas e este é o resultado”, acrescentou.

Hideo Maeda, chefe de um centro de saúde pública em Tóquio, afirmou à CNN que a sua equipa quadruplicou para 40 desde o início da pandemia, mas ainda não é o suficiente. Na enfermaria que dirige, todos os dias dezenas de pessoas aguardam uma vaga no hospital.

“Muitos profissionais trabalham todos os dias, nos fins de semana e feriados. Estamos exaustos e deprimidos – psicologicamente- pelo stress. A equipa tem de tomar decisões difíceis sobre a vida das pessoas num curto espaço de tempo”.


Em dezembro, uma sondagem da Kyodo News revelava que cerca de metade dos hospitais que oferecem procedimentos médicos avançados enfrentavam uma escassez de médicos e enfermeiros.
Resposta “lenta e confusa”
Em janeiro, o primeiro-ministro Yoshihide Suga fez um raro pedido de desculpas à população. “Como responsável, sinto muito. Não temos sido capazes de fornecer os cuidados necessários”.


O Governo foi responsabilizado por uma resposta lenta e indecisa à pandemia. Suga descartou a necessidade de um estado de emergência no final de dezembro. Em janeiro acabou por declarar um para Tóquio e outras regiões.

Para Kenji Shibuya, diretor do Instituto de Saúde e População da King's College London, a resposta do Japão tem sido “muito lenta e confusa”.


“Por um lado incentivaram as viagens domésticas e refeições em restaurantes, por outro lado apenas pediram às pessoas para terem cuidado”, realçou.

Na passada semana, o parlamento japonês aprovou dois projetos-lei que dão às autoridades o poder de multar os infratores das regras, incluindo as empresas que se recusassem a reduzir os horários a pessoas infetadas.

Segundo a nova lei, o Governo também pode solicitar que os hospitais aceitem doentes infetados com Covid-19. 
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