Crimes de guerra. EUA retaliam contra procuradora do Tribunal Penal Internacional

Crimes de guerra. EUA retaliam contra procuradora do Tribunal Penal Internacional

Os Estados Unidos revogaram o visto de Fatou Bensouda, procuradora-geral do Tribunal Penal Internacional (TPI), devido a uma investigação sobre alegadas atrocidades cometidas por soldados norte-americanos no Afeganistão, anunciou hoje o gabinete de Bensouda.

RTP / Adicionar como fonte informativa
Toussaint Kluiters, Reuters

Um relatório do Tribunal, realizado em 2016, defendia que havia indícios fortes de que os militares americanos tinham cometido atos de tortura em centros de detenção secretos operados pela CIA, e que o Governo afegão e os talibãs tinham cometido crimes de guerra.

Desta forma, a procuradora-geral do TPI – tribunal internacional encarregado de julgar crimes de guerra e contra a humanidade – pediu em novembro de 2017 autorização para abrir a investigação.

No entanto, no mês passado, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, anunciou a imposição de sanções a juízes e procuradores do TPI que investiguem as ações dos militares norte-americanos ou dos seus aliados, especialmente Israel. “O TPI está a atacar o nosso Estado de direito. Não é tarde para recuar e é isso que tem de fazer imediatamente”, disse.

Também John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, criticou o TPI, descrevendo-o como “ilegítimo” e “ineficaz”, e como uma ameaça para “a soberania americana e a segurança nacional dos EUA”.

Em setembro de 2018, o TPI comprometeu-se a continuar a investigar crimes de guerra “não intimidado” pela ameaça do Governo de Trump: “O TPI, como Tribunal, continuará a fazer o seu trabalho, de acordo com os princípios do Estado de Direito”.

O comunicado divulgado esta sexta-feira pelo gabinete de Fatou Bensouda refere que, segundo o Estatuto de Roma do TPI, a procuradora não pode ser impedida de viajar para Nova Iorque e participar em reuniões na sede da ONU. Bensouda “irá continuar a exercer as suas funções no Tribunal de Haia, sem medo ou favoritismo”, refere o comunicado.
“Relações tumultuosas”
As relações entre Washington e este tribunal sempre foram tumultuosas. O TPI é regido pelo Estatuto de Roma, um tratado que os EUA se recusaram a assinar desde que entrou em vigor a 1 de julho de 2002, enfraquecendo a autoridade do Tribunal.

Inclusive o Governo norte-americano fez acordos bilaterais com vários países, para evitar que norte-americanos sejam alvo de investigação.

A administração de Trump, por sua vez, levou a desconfiança sobre o TPI ao extremo. Na segunda-feira, o presidente do TPI, Chile Eboe-Osuji, pediu aos Estados Unidos para apoiarem o Tribunal e aderirem ao seu tratado fundador, “cujos valores e objetivos são totalmente compatíveis com os valores da América”, disse.
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