Crise na fronteira. Bielorrússia ameaça corte no fornecimento de gás à Europa

A hipótese foi levantada por Alexander Lukashenko esta quinta-feira. Na sequência da crise migratória na fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia, com a troca de acusações a subir de tom nos últimos dias, Minsk pondera agora interromper a passagem do gás natural para a Europa em resposta a futuras novas sanções de Bruxelas.

Andreia Martins - RTP /
Ministério polaco da Defesa/Reuters

“Estamos a aquecer a Europa e eles ainda nos ameaçam de que vão encerrar a fronteira. E se lhes interrompermos o fluxo de gás natural? A minha recomendação aos líderes da Polónia, aos lituanos e a outros loucos é que pensem duas vezes antes de falar”, referiu o líder bielorrusso, citado pela agência estatal Belta.

Alexander Lukashenko refere-se em concreto ao corte de abastecimento através do gasoduto de Yamal, que transporta gás natural vindo da Rússia, passando pela Bielorrússia antes de chegar à Polónia e Alemanha.

O corte no abastecimento é agora a possível retaliação do regime bielorrusso perante novas sanções europeias pelo tratamento dado aos migrantes. Um diplomata confirmou às agências internacionais que estas novas sanções poderão ser aprovadas na próxima segunda-feira.

Este quinto pacote de sanções deverá abranger novas listas de empresas e indivíduos, nomeadamente companhias aéreas que levam migrantes dos países de origem até à Bielorrússia.

As autoridades europeias acusam a Bielorrússia de trazer milhares de migrantes em situação de fragilidade, vindos sobretudo do Médio Oriente, com o objetivo de os encorajar a seguirem para território da União Europeia.

Na quarta-feira, Bruxelas acusou Minsk de perpetrar um “ataque híbrido” contra o bloco europeu, ao orquestrar uma crise migratória.

As autoridades europeias entendem que se trata de uma ação deliberada de retaliação contra as sanções em vigor nos últimos meses, aplicadas em resposta à opressão da oposição do Governo de Lukashenko após as eleições presidenciais de 2020.
Dependência do gás russo

Convém destacar que o bloco comunitário está atualmente a braços com uma crise energética e que um terço do gás natural que consome é proveniente da Rússia. Ainda há dois dias, a Rússia anunciava o aumento de fornecimento de gás através do gasoduto Yamal, após ter dado ordem de reforço à empresa estatal russa, Gazprom.

De acordo com a agência EFE, o volume de gás bombeado na terça-feira subiu para quase 60 mil metros cúbicos por hora face aos cerca de 360 mil metros cúbicos no dia anterior.

A Rússia também não tem passado ao lado da crise na fronteira bielorrussa com a Polónia. Na quarta-feira, a chanceler alemã, Angela Merkel, falou ao telefone com Vladimir Putin e pediu ao Presidente russo que “influenciasse” o regime de Minsk.

O dia de quarta-feira ficou também marcado por duras acusações contra Moscovo pelo alegado envolvimento da Rússia nesta crise. O primeiro-ministro polaco disse mesmo que Putin era “o menor” deste ataque contra a Polónia e a União Europeia.

A Rússia e a Bielorrússia negam todas as acusações, mas apontam que a União Europeia não está a cumprir os seus próprios valores ao impedir a entrada de migrantes ou mesmo a impedir a apresentação de pedidos de asilo.
Os alertas de países vizinhos
Presos entre duas fronteiras, impedidos pelos polacos de prosseguirem viagem, mas pressionados a sair pelos bielorrussos, os migrantes são obrigados a suportar um clima frio em acampamentos improvisados.

Vários países da região alertaram esta quinta-feira para uma crise crescente e eventual confronto militar. Lituânia, Estónia e Letónia condenam “a escalada deliberada do ataque híbrido em curso por parte do regime bielorrusso”, que representa “sérias ameaças à segurança europeia”.

Os ministros da Defesa destes três países do bloco comunitário alertam que este aumento de “provocações e incidentes graves” podem chegar ao domínio militar.

Com o escalar da situação, a Rússia enviou na quarta-feira dois bombardeiros estratégicos para patrulhar o espaço aéreo do país.

Também nesta zona do globo, a Ucrânia prepara-se para uma eventual crise nas suas fronteiras.

Kiev teme tornar-se num novo ponto de tensão e anunciou esta quinta-feira o envio de mais 8.500 militares e polícias e 15 helicópteros para proteger a fronteira com a Bielorrússia e impedir eventuais tentativas de transposição por parte dos migrantes.

(com agências internacionais)
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