CRISE ROHINGYA
Um ano depois, sem fim à vista

Mais de 700 mil muçulmanos Rohingya fugiram de Myanmar desde 25 agosto de 2017, quando os ataques de rebeldes Rohingya desencadearam uma contra-ofensiva militar no Estado de Rakhine. Num relatório militar birmanês, datado a 13 de novembro de 2017, assegurou que a violência foi desencadeada por “terroristas” rohingya, retirando todas as acusações de atrocidades das forças de segurança birmanesas. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos classificou a operação militar como um exemplo clássico de “limpeza étnica”.

Um ano depois dos ataques mortais, centenas de milhares de refugiados Rohingya continuam a viver em acampamentos sobrelotados e rudimentares no Bangladesh.

A agência Reuters organizou uma série de gráficos que resumem o percurso da crise, desde o espasmo da violência do ano passado até ao quotidiano dos refugiados nos campos sobrelotados.

Última atualização: 24 de agosto de 2018

Ataques militares

Pouco depois da meia noite no dia 25 de agosto, a rebelião Exército de Salvação do Estado Rohingya (Arakan Rohingya Salvation Army, ARSA) atacou três dezenas de postos da polícia birmanesa e uma base militar em Rakhine. Aproximadamente 400 rebeldes e 13 membros das forças de segurança morreram neste ataque, dizem as autoridades.

Vilas queimadas

Os ataques surpresa e disseminados dos rebeldes Rohingya atraíram uma resposta em força por parte do Exército birmanês. Testemunhas relataram que grandes áreas do território Rohingya foram queimadas, reduzindo a cinzas muitas aldeias.

O governo birmanês assegura que a culpa dos incêndios foi dos rebeldes e que empreendeu uma campanha legítima contra “terroristas”.

Fotografia de uma aldeia islâmica em Thit Tone Nar Gwa Son, em setembro, mostra as marcas dos sítios onde estavam as casas /Foto: Reuters

Dados retirados do Programa de Aplicações Operacionais por Satélite da ONU (UNOSAT) mostram que dezenas de aldeias Rohingya foram queimadas. O exército birmanês concluiu que as tropas agiram legalmente. A administração de Aung San Suu Kyi defendeu que as acusações dos Rohingya de abuso generalizado são propaganda rebelde.

Os dados mostram as áreas queimadas entre 25 de agosto e 25 de novembro. A área estende-se por 110 km, desde as colinas verdes do norte de Rakhine até às praias próximas da capital do sul do Estado, Sittwe.

O Êxodo

A resposta militar desencadeou um êxodo em massa dos Rohingya para o Bangladesh.

Os refugiados deslocaram-se por terra, rio e mar até chegarem a Cox Bazar, no empobrecido Bangladesh, onde centenas de milhares de Rohingyas vivem agora em campos improvisados, dependentes da ajuda de agências humanitárias. Muitos chegaram doentes ou feridos, com idosos transportados em macas improvisadas.

Crédito: UNHCR

Esta vaga de refugiados sobrecarregou as comunidades que já estavam a ajudar milhares de pessoas que tinham fugido à violência anterior em Myanmar. Mais de 700 mil refugiados atravessaram a fronteira desde os ataques, elevando o número de refugiados Rohingya no Bangladesh para 900 mil pessoas.

Número de chegadas de refugiados Rohingya desde 25 de agosto de 2017

Muitos refugiados viajaram durante dias em época de monções para o seu destino através da fronteira. Outros tiveram de atravessar rios antes de chegar ao rio Naf, fronteira natural que separa Myanmar do Bangladesh. A travessia mais perigosa foi feita em barcos de madeira improvisados, desembarcando na costa.

Vários campos de refugiados, campos improvisados e comunidades de acolhimento estão localizados em Cox Bazar, no extremo sul de Bangladesh. A velocidade e a escala deste êxodo criou os mais densamente povoados campos de refugiados do mundo.

Os campos de refugiados

A chegada massiva de refugiados transformou as colinas do sudoeste do Bangladesh num mar interminável de tendas brancas, laranjas e azuis. Os residentes estão acomodados a longo prazo.

Este local é considerado hostil pois é uma zona de constantes inundações.

Os refugiados que chegam aos campos enfrentam “terrenos inóspitos, montanhosos, sem drenagem e com pouco ou nenhum acesso rodoviário”, diz a Organização Internacional para as Migrações, que coordena a gestão dos campos de refugiados.

Crédito: Andrew R.C. Marshall - Reuters

Os refugiados evitam zonas planas para se estabelecerem, de forma a evitar inundações. Preferem encostas íngremes para construir as suas casas improvisadas em bambu ou lona. A lama é o piso único de maioria das cabanas.

Especialistas em saúde alertam que a sobrelotação, más condições sanitárias e apoio médico limitado são “uma receita para o desastre”.

Embora Myanmar diga que está pronta a receber de volta os Rohingya, a contínua saída de refugiados evidencia a falta de progresso na resolução da crise, um ano após o início da ofensiva.

Fonte: REUTERS GRAPHICS