Cruz Vermelha e Crescente Vermelho alertam que desinformação também é uma questão de vida ou morte
A Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) advertiu hoje que em contextos humanitários a "informação prejudicial", o caso da desinformação, também é "uma questão de vida ou morte", exortando todos os atores relevantes a combatê-la.
O alerta consta do Relatório Mundial de 2026 sobre Catástrofes da FICV, hoje apresentado em Genebra (Suíça), que apela a governos, empresas de tecnologia, meios de comunicação social, comunidades e organizações da sociedade civil a unirem esforços para garantirem informação fiável, apontando que, em crises humanitárias, "é tão essencial quanto alimentos, água e abrigo".
Definindo informação prejudicial como "informação com o potencial de causar, contribuir para ou resultar em danos a um indivíduo ou entidade" e apontando que esta "inclui desinformação, informação errada, maliciosa, discurso de ódio e outras narrativas prejudiciais", o relatório sublinha que a mesma "não é apenas ruído de fundo", pois "molda ativamente a forma como as pessoas entendem as crises, em quem confiam e se podem aceder à assistência humanitária e proteção".
Por outro lado, "representa um desafio operacional e estratégico que afeta a aceitação, a segurança e a ação humanitária baseada em princípios", prossegue o documento.
"À medida que o ecossistema da informação se torna cada vez mais complexo, também deve aumentar a capacidade de a ler, responder a ela e proteger as populações, indivíduos e organizações afetados dos seus danos. Navegar neste ecossistema é agora uma parte essencial do que significa agir em crises humanitárias", salienta o relatório da FICV, que, entre os muitos exemplos dados no extenso documento, relata o caso da informação prejudicial que ocorreu quando, em outubro de 2024, Valência foi atingida por cheias provocadas pela tempestade DANA que provocaram 236 mortos.
"Incidentes específicos de informação prejudicial que se espalharam nas redes sociais incluíram comentários negativos, insultos e ameaças dirigidos aos nossos trabalhadores e voluntários nas ruas e, em menor grau, atos de vandalismo contra os nossos escritórios e veículos, como grafites e pneus furados", aponta a Cruz Vermelha, alvo de boatos de que não estava a atuar ou estava a usar fundos indevidamente.
O relatório refere que a desinformação não impediu o trabalho humanitário, mas criou "uma carga de trabalho extraordinária dedicada a negar, explicar ou minimizar o impacto de informações prejudiciais, causando sofrimento emocional e até mesmo dúvidas sobre a organização, tanto na sociedade como entre os membros da Cruz Vermelha Espanhola, minando a confiança do público, com alguns doadores a questionarem a organização".
Salientando que "a informação prejudicial não é nova, mas hoje circula com uma velocidade e um alcance sem precedentes", pois "as plataformas digitais abrem canais vitais para as vozes da comunidade, mas também proporcionam um terreno fértil para mentiras", um cenário agravado pela Inteligência Artificial, a FICV exorta então à ação coordenada de todos os atores relevantes.
"A responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre as organizações humanitárias. Lidar com informações prejudiciais requer aumentar a resiliência, construir confiança e aprofundar o envolvimento da comunidade. Também exige uma ação coordenada e multilateral, por parte de governos, empresas de tecnologia, meios de comunicação social, comunidades e organizações da sociedade civil", sustentam.
Comentando o relatório, este ano intitulado "Verdade, confiança e ação humanitária na era da informação prejudicial", o secretário-geral da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, Jagan Chapagain, sublinha a importância vital da informação em situações de crise.
"Em todas as crises que testemunhei, e em todas as respostas da rede internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho a desastres, emergências de saúde pública, movimentos populacionais em massa ou consequências humanitárias de conflitos armados, a informação é tão essencial quanto alimentos, água e abrigo", pois "orienta as pessoas para a segurança, conecta-as aos seus entes queridos e dá-lhes o conhecimento necessário para protegerem a si mesmas e às suas comunidades", destaca.
"Mas a informação também pode causar danos: quando falsa, enganosa ou deliberadamente manipulada, pode aprofundar o medo, alimentar a discriminação, obstruir o acesso humanitário e custar vidas. Vimos isso com demasiada frequência: durante surtos de doenças, quando os rumores ultrapassam os conselhos de saúde, após desastres, quando a desconfiança dificulta a entrega de ajuda, e em conflitos armados, quando narrativas inflamatórias intensificam a violência", prossegue.
Reforçando o apelo do relatório, Chapagain exorta "governos, atores humanitários, meios de comunicação social, empresas de tecnologia e comunidades a reconhecerem que a fiabilidade da informação é uma questão de vida ou morte" e a agirem em conformidade.
"Assim como planeamos a logística, o alojamento e os cuidados de saúde em situações de emergência, também devemos planear o ambiente informativo. Isso requer investir no envolvimento da comunidade, priorizar ouvir em vez de falar, construir resiliência contra narrativas prejudiciais e defender consistentemente a humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência em todas as interações e mensagens", sustenta o secretário-geral da FICV.