Dalai Lama admite deixar de ser o líder espiritual do Tibete

O Dalai Lama afirmou esta terça-feira que abdicará da posição de líder espiritual dos tibetanos se o quadro de violência no Tibete ficar “fora de controlo”. Pequim acusa o líder espiritual do Tibete de ter orquestrado os motins dos últimos dias.

Carlos Santos Neves, RTP /
O Dalai Lama garante não ter nada a ocultar Harish Tyagi, EPA

A garantia foi deixada pelo líder espiritual tibetano durante uma conferência de imprensa em Dharamsala, no Norte da Índia. “Se as coisas ficarem fora de controlo, então a minha única opção será demitir-me por completo”, afirmou o Dalai Lama.

As declarações do líder religioso surgem numa altura em que a China acentua o aparato militar junto ao Tibete. Camiões e colunas de operacionais militares em marcha foram captados pelas câmaras de televisão perto da fronteira com a região.

Pequim mantém-se irredutível na sua versão dos acontecimentos dos últimos dias, esforçando-se por assegurar que tem actuado com contenção. E assaca responsabilidades pela vaga de violência no Tibete ao Dalai Lama, a quem reserva o epíteto de “força negra”. Isso mesmo foi reiterado esta terça-feira pelo primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, que acusou o líder espiritual do Tibete de ter instigado os motins contra o poder central e de pretender fomentar a “sabotagem” dos Jogos Olímpicos de Pequim, previstos para Agosto deste ano.

O Governo chinês exige mesmo uma investigação internacional ao alegado envolvimento do Dalai Lama nos protestos de Lhasa contra a administração chinesa.

“A comunidade internacional deveria perguntar ao próprio Dalai Lama qual foi o seu papel nos incidentes”, disse um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China.

O Dalai Lama instara na semana passada a comunidade internacional a instituir uma comissão para investigar a vaga de violência no Tibete.

Na resposta às acusações de Pequim, o líder espiritual garante não ter nada a ocultar: “Investiguem exaustivamente. Se quiserem começar a investigar a partir daqui, são muito bem-vindos”.

“Podem examinar o meu pulso, a minha urina, as minhas fezes, tudo”, ironizou.

Na passada sexta-feira, ao quinto dia de manifestações lideradas por centenas de monges budistas, a tensão deu lugar à violência. Chineses da etnia Han e Hui foram atacados por grupos de manifestantes tibetanos. Lojas e veículos da polícia foram incendiados.

Pequim limita a 16 o número de mortes provocadas pela repressão dos protestos. O Parlamento tibetano no exílio fala em centenas de mortos.

Em declarações à agência Reuters, Samdhong Rimpoche, chefe do Executivo tibetano no exílio, frisou que o Dalai Lama continuará a ser o líder religioso do povo tibetano, mesmo depois de uma eventual “demissão”.

A cidade de Dharamsala, no Norte da Índia, é a “sede” do auto-proclamado Governo tibetano no exílio.

A sublinhar as palavras do Dalai Lama, mais de dois mil tibetanos concentraram-se esta terça-feira em Siliguri, no nordeste da Índia, para uma das maiores manifestações dos últimos anos em defesa da independência do Tibete. Liderados por centenas de monges budistas, os manifestantes exigiram uma investigação das Nações Unidas à actuação das autoridades chinesas.
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