Dalai Lama disposto a encetar conversações com autoridades de Pequim

O líder espiritual dos tibetanos afirma estar disponível para iniciar conversações com as autoridades chinesas, incluindo o Presidente Hu Jintao, com vista a pôr termo à violência no Tibete. No mesmo dia em que o Dalai Lama deixou novo apelo à contenção, Pequim reconheceu pela primeira vez que os protestos contra a administração chinesa do Tibete alastraram a outras províncias.

Carlos Santos Neves, RTP /
“O problema do Tibete deve ser resolvido entre o povo tibetano e o povo chinês”, disse o Dalai Lama. Daniel Dal Zennaro, EPA

Depois de ter admitido, na passada terça-feira, a possibilidade de abdicar da posição de líder espiritual dos tibetanos, o Dalai Lama faz agora um novo apelo ao fim dos protestos e da repressão no Tibete e afirma estar disposto a dialogar com as autoridades de Pequim. Mas garante também que não viajará para a capital chinesa sem que ocorram “ desenvolvimentos reais e concretos” na situação no Tibete.

A resposta de Pequim retoma parte da fórmula utilizada nos últimos dias, que reserva ao Dalai Lama o apodo de “instigador” dos protestos violentos em território tibetano – acções que visariam “sabotar” os Jogos Olímpicos e Pequim, marcados para Agosto. O Governo chinês reafirma que o líder espiritual tibetano deve “parar as actividades separatistas” e reconhecer o Tibete e Taiwan como territórios sob soberania da China. São estas as condições de Pequim para admitir uma iniciativa de diálogo com o Dalai Lama.

Em Dharamsala, na Índia, sede do Governo tibetano no exílio, o Dalai Lama reiterou que a independência do Tibete não figura entre os seus propósitos: “O Mundo inteiro sabe que o Dalai Lama não está à procura da independência, repeti isto uma centena de vezes, um milhar de vezes. É o meu mantra. Não estamos em busca da independência”.

O objectivo, sublinhou o líder espiritual do Tibete, é dar mais autonomia aos tibetanos, sem no entanto retirar o território da alçada do Governo de Pequim.

“O problema do Tibete”, insistiu, “deve ser resolvido entre o povo tibetano e o povo chinês”.

“Quanto ao Dalai Lama, não só ouvimos o que ele diz como - mais importante – estamos concentrados no que ele faz”, afirmou, por sua vez, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China Qin Gang, citado pela Associated Press.

China reforça dispositivos de segurança

Pela primeira vez desde o início da vaga de violência no Tibete, há quase duas semanas, Pequim reconheceu que as suas forças de segurança dispararam contra manifestantes e que os protestos já alastraram a outras províncias com comunidades tibetanas.

Segundo a agência estatal Xinhua News, a polícia chinesa atingiu a tiro, “em legítima defesa”, quatro “amotinados” no decurso de manifestações ocorridas domingo na província de Sichuan. Uma versão rejeitada por grupos de activistas da região de Ngawa, palco das acções de protesto de domingo, que dão conta de pelo menos oito pessoas abatidas pelos disparos da polícia chinesa.

Milhares de efectivos da polícia paramilitar foram destacados esta quinta-feira para o sudoeste do Tibete. Um correspondente da BBC relatou ter avistado mais de 400 veículos de transporte de tropas a caminho do Tibete.

As manifestações tiveram início a 10 de Março na capital do Tibete, Lhasa, por ocasião do aniversário da sublevação de 1959 contra a administração de Pequim.

Pequim circunscreve a 13 o número de vítimas mortais dos confrontos no Tibete. O Governo tibetano no exílio fala de centenas de mortos no Tibete e em regiões vizinhas.
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