Debate sobre xenofobia na Noruega marca 1.º aniversário de massacre de Utoya

Apelos à expulsão de ciganos, ou "Roma", da Noruega, estão a dividir opiniões no país. Nas redes sociais, o tom de muitos comentários roça o racismo. O primeiro-ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, confessa-se perturbado com a intolerância manifestada, sobretudo na véspera das celebrações do primeiro aniversário do massacre de Utoya, em 22 julho de 2011.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Breivik revelou uma face escondida da Noruega que está a reemergir no debate sobre os ciganos no país Heiko Junge

Nesse dia, uma sexta-feira, Anders Behring Breivik fez explodir bombas junto a edifícios governamentais no centro de Oslo e atacou friamente a tiro um acampamento de verão de jovens militantes de esquerda, na ilha de Utoya.

Justificou os actos como uma forma de contestação ao multiculturalismo que, na Noruega, assumiu um acolhimento de braços abertos a pessoas oriundas de outras culturas, as quais, depois, nem sempre se integram nem respeitam as leis norueguesas ou outros cidadãos.

Argumentos que estão agora a surgir nas redes sociais, depois de várias queixas contra grupos ciganos, ou Roma, como são conhecidos.Queixas contra ciganos
Vizinhos das tendas que estes instalam, acusam os ciganos, ou Roma, como também são conhecidos, de serem insalubres, de fazerem barulho e de erguerem construções ilegais. Há ainda denúncias de que, devido à crise nos países do sul, a entrada dos ciganos na rica Noruega aumentou.

Tanto bastou para políticos anti-imigração começarem a exigir que os ciganos fossem arrebanhados e expulsos do país. "Já basta. Arranjem autocarros e mandem-nos embora", afirmou Siv Jensen, o líder do Partido do Progresso, anti-imigração, à NRK.Num acampamento escondido numa floresta em terrenos públicos, vivem cerca de 100 pessoas. Cristian Florian Tudescu, de 31 anos, é uma delas. Romeno, diz que viveu dois anos na Grécia e na Turquia antes de vir para a Noruega. Tudesco apanha garrafas que devolve pelo depósito. Vende ainda revistas, afirma, de uma organização que apoia a comunidade cigana. Diz que na Noruega vive bem, "como um Rei" e que no geral as pessoas são simpáticas.

Muitos noruegueses temem que os ciganos tentem aproveitar-se dos apoios sociais estatais, apesar das garantias do governo dadas em conferência de imprensa expressamente sobre o assunto.

Só poderá candidatar-se aos apoios quem tenha emprego a tempo inteiro, explicou a ministra do Trabalho Gina Lund.

"Mendigar não é ilegal mas isso não significa que seja considerado um emprego", afirmou, acrescentando que, tal como outros europeus, os Roma terão de se sustentar enquanto estiverem na Noruega.
Contra-reação à retórica xenófoba
Apesar de não ser membro na União Europeia, a Noruega é um parceiro muito próximo do bloco vizinho e autoriza cidadãos da UE, incluindo da Roménia e da Bulgária, a entrar livremente e a permanecer no território por três meses sem necessidade de registo com as autoridades.

O líder da Juventude Trabalhista, que escapou com vida do ataque de Brevik há um ano na ilha de Utoya, afirma-se "doente" com alguns comentários que circulam nas redes sociais. Mas prefere sublinhar a contra-reação de milhares de noruegueses contra a retórica anti-cigana, que considera ser atualmente mais forte do que há um ano.

O massacre de Utoya e as bombas de Oslo deixaram marcas profundas na sociedade norueguesa. Breivik fez 77 mortos e deixou a Noruega em estado de choque, sobretudo porque era norueguês de nascimento e assumiu a autoria do massacre sem mostrar quaisquer remorsos.

Breivik, que deverá ser sentenciado dentro de um mês, continua a não assumir qualquer culpa, afirmando que apenas defendeu o seu país daqueles que o ameaçam devido às suas políticas de imigração.
"Assustador"
Após o massacre a Noruega prometeu favorecer a democracia e combater a xenofobia e a intolerância que motivaram Breivik a cometer o pior massacre na Europa desde a 2.ª Grande Guerra. Por isso o nível de xenofobia e intolerância revelado no recente debate contra os ciganos está a provocar novo choque.

"Parte do que estamos a ver é assustador", disse Stoltenberg, à televisão norueguesa TV2, esta semana, referindo-se ao tom abertamente racista de muitos comentários. O primeiro ministro da Noruega tentou serenar os ânimos. "Ninguém será julgado por pertencer a um determinado grupo étnico", garantiu.

Os ciganos são cidadãos europeus, na sua maioria de origem romena ou búlgara e, como povo tradicionalmente nómada, têm aproveitado a abolição das fronteiras no espaço europeu para circularem e instalarem em vários países.

Os seus hábitos colidem no entanto com muitas leis europeias e com as expetativas da maioria dos cidadãos europeus quanto a comportamentos socialmente aceitáveis. Centenas foram recentemente expulsos de França e, em Itália, a controvérsia sobre a sua permanência está sempre latente.
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