Defesa do Sri Lanka rejeita golpe militar em curso no país
O responsável pela Defesa do Sri Lanka descartou hoje que tenha havido um golpe militar no país, apesar de terem sido enviados milhares de soldados para controlar protestos nas ruas e de o primeiro-ministro se ter demitido.
"Quando há uma situação perigosa no país, são dados poderes aos militares para lidarem com a situação", disse o secretário do Ministério da Defesa do Sri Lanka, Kamal Gunaratne, em declarações a jornalistas.
"Não pensem que estamos a tentar tomar o poder. Os militares não têm tais intenções", garantiu.
O Sri Lanka está, desde o início desta semana, sob recolhimento obrigatório e com milhares de militares nas ruas com instruções para disparar sobre qualquer pessoa que ataque propriedade alheia ou cometa atos de violência.
Os veículos blindados que transportam soldados pelas ruas da capital, Colombo, provocaram receio de um golpe militar iminente, possibilidade que tem sido discutida por milhares de pessoas nas redes sociais.
O Presidente, Gotabaya Rajapaksa, irmão do ex-primeiro-ministro, permaneceu no cargo e goza de amplos poderes e comando das forças de segurança, apesar de estar confinado na sua residência oficial e sob forte vigilância.
"A violência está a ser provocada [pelas autoridades] para estabelecer um regime militar", denunciou o líder da oposição, Sajith Premadasa, na rede social Twitter, exigindo que o Estado de Direito seja "mantido pela Constituição e não pelas armas".
Kamal Gunaratne confirmou também que o ex-primeiro-ministro, Mahinda Rajapaksa, está protegido numa base naval até que as tensões no país diminuam, após a violência na segunda-feira incitada por seus seguidores que provocou nove mortos e mais de 200 feridos.
A população da ilha, sobrecarregada por meses de grave escassez de alimentos, falta de combustível, medicamentos e por cortes de energia, iniciou, há algumas semanas, protestos pacíficos a pedir a renúncia do Presidente, Gotabaya Rajapaksa, e do Governo.
Na segunda-feira, partidários do Governo, trazidos das províncias para a capital Colombo e galvanizados pelo primeiro-ministro demissionário Mahinda Rajapaksa, atacaram os manifestantes.
"Levámos Mahinda Rajapaksa para a Base Naval de Trincomalee para sua segurança, depois de o proteger de milhares de manifestantes violentos que cercaram a sua residência oficial, em Temple Teres, Colombo", avançou o secretário da Defesa na conferência de imprensa de hoje, acrescentando que "assim que a situação voltar ao normal, será transferido para um local à sua escolha".
A renúncia do primeiro-ministro causou a dissolução do Governo, tendo o Presidente -- ele próprio um militar reformado - pedido a constituição de um Governo de unidade nacional.
Gotabaya Rajapaksa -- que chegou ao poder em 2019 como herói militar e com a promessa de prosperidade económica e maior segurança - foi hoje criticado por duas organizações não-governamentais (ONG) pelo "seu papel nas "operações brutais contra insurgentes no final dos anos 1980".
Um documento conjunto da ONG International Truth and Justice Project (Projeto Internacional Verdade e Justiça) e da Journalists for Democracy in Sri Lanka (Jornalistas pela Democracia no Sri Lanka) destacou o papel cúmplice do chefe de Estado nos abusos cometidos durante as operações na década de 1980 contra a formação insurgente Janata Vimukti Peramuna (JVP), atualmente um partido democrático.
"Gotabaya Rajapaksa sabia, ou deveria saber, que os soldados sob seu comando eram responsáveis por violações em massa e sistemáticas dos direitos humanos", disseram as organizações.
O atual Presidente foi o coordenador militar do distrito central de Matale entre 1989 e 1990, reduto dos insurgentes marxistas JVP, pertencentes à maioria étnica cingalesa, que se opõe aos separatistas dos Tigres Tamil.
Entretanto, o Papa Francisco pediu hoje às autoridades e manifestantes do Sri Lanka que "mantenham um comportamento pacífico sem ceder à violência" e respeitem plenamente os "direitos humanos" e as "liberdades civis".
"Dirijo um pensamento especial ao povo do Sri Lanka, particularmente aos jovens que, nos últimos tempos, fizeram ouvir o seu clamor diante dos desafios e dos problemas sociais e económicos do país", afirmou o Papa na sua audiência semanal na Praça de São Pedro.
"Peço a todos aqueles que têm responsabilidades" que ouçam "as aspirações do povo", acrescentou ainda Francisco